sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

pés no chão (quem tem pena de passarinho - ed. periópolis)

líria porto

a lua no alto
o gato a lamber os bigodes
a sonhar com um prato de leite

vou à janela
e sem ilusão
vejo o satélite

*

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

amigo

líria porto

arrumei a cama abri a janela plantei flores azuis
amornei a água perfumei os cabelos há gavetas para a tua dor
cabides para pendurar o medo e se quiseres
terás novo cobertor

podes trazer o gato o teclado os velhos chinelos
os discos de jazz o amor o cansaço
estou à tua espera

*

pico

líria porto

atado às origens
um pássaro estende a montanha
na direção das nuvens

*

brasileirinhos

líria porto

o que há de mestiçagem
no sangue dessa minha boa gente
só deus sabe

brancos vermelhos pretos amarelos
formam o grande povo

*

prece

líria porto

quando a vida se faz noite
eu durmo de lua acesa
a iluminar os meus medos
a enfrentar minhas sombras
a esperar que amanheça

lua cheia padroeira
benfazeja minha santa
clareia-me as trevas
dá-me coragem
substância

*

(publicado no livro olho nu - ed. patuá) sangria

líria porto

dentro da pele
tudo que somos
fora da pele
o que fingimos
cortar os pulsos
talvez resolva
volver o suco
dessa ruína

*

medusa

líria porto

execrável como os medos
ódios misérias injúrias
a megalópole se expande
assusta-nos mais que o demo
mastiga-nos cospe-nos
transforma-nos
em disforme pasta urbana

*

sem eiras nem beiras

líria porto

palavras bonitas - subúrbio
arrebalde cercanias cascalho

) caminhar pelos arredores
apreciar as flores nascidas entre
as pedras (

*

madame noite

líria porto

sem escrúpulo
sem cabimento
após o crepúsculo
veste roupa escura
ostenta brilhantes
perfumes amantes
luxúria

*

remanso

líria porto

um cisco
pisco

o ramo
o remo
a rima
o romance
o rumo

*

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

resfriado

líria porto

chegaste chuvoso
queria raios de sol
(febres?)
chás de frutas cítricas
incêndios íntimos
(beijos na boca?)
torradas de pão com geleia
sopa creme de aspargos

*

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

pingente

líria porto

lágrima - sem força para cair
pendurou-se no cordão

*

andarilho

líria porto

minha casa é onde durmo
um colchão um travesseiro
fecho os olhos nem pergunto
se o chão é estrangeiro

*

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

luane

líria porto

a lua me roça
a roça me alua

adoça-me moça
coça-me

sua-me

*

domingo, 3 de janeiro de 2010

revolta

líria porto

o que nos revolve
não se resolve nem com revólver
ou facada

*

(publicado no livro garimpo - editora lê) - borrão

líria porto

a caneta do poeta
fica assim aos borbotões
como se fora um acesso
de raiva tosse ou vômito
quando uma rima indiscreta
movida pelo complexo
ataca de jeito incômodo
e contrapõe-se ao verso

*

vingança

líria porto

servir a entrada
o prato principal
o vinho
a sobremesa

na hora da (in)digestão
copinhos de licor
com cianureto

(o ódio
melhor guardá-lo
são mais eficazes
as atitudes frias)

*


sábado, 2 de janeiro de 2010

ao amigo que se foi

líria porto

primeiro mês
o sol não veio
a lua não apareceu
ficamos todos recolhidos
chovemos

manhã qualquer o céu terá
a cor dos seus olhos

*

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

flores-de-laranjeira

líria porto

o casamento é um cento de laranjas
doces azedas verdes e maduras

) uma podre estraga tudo (

*

quem se arrisca
rompe a risca entre o chão
e a areia movediça
*
(líria porto)
*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

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