terça-feira, 14 de junho de 2011

insone

líria porto

zumbis não dormem
têm medo do sono
ou da morte?

*

segunda-feira, 13 de junho de 2011

matrimônio

líria porto

ela se empanturra
ele se embriaga

ai santo antônio
que praga

*

notívago

líria porto

a claridade o aturde
a tarde o atordoa
e quase como um morcego
um lobo um gato um jaguar
dorme com o sol a pino
desperta na escuridão

*

mestiçagem

líria porto

metade portuguesa
a outra parte é turca
(um jeitinho brasileiro)

quando a vida se bifurca
no sábado veste burca
no domingo - de biquini
samba na avenida

*

(publicado em cadela prateada - ed. penalux) - celebração

líria porto

no coro da igreja
freiras prendem o corpo
e soltam a voz

o padre
levanta a hóstia

*

domingo, 12 de junho de 2011

das descobertas

líria porto

precisou a ponte cair
para que soubéssemos
a melhor estrada a mais bonita
não é asfaltada – é de terra
batida

*

garatuja (quem tem pena de passarinho - ed. periópolis)

líria porto

o amor que eu tenho é só um desenho
esboço malfeito d’alguma paixão
recolhida

*

sábado, 11 de junho de 2011

mundo cão

líria porto

um triz e a tristeza triscava beatriz
quis chorar depois riu –– paris era rima
e solução

( raimundo que o diga)

*

substituto

líria porto

preenche-me os vãos
dá-me muito gosto –– fá-lo com competência
porém não é o meu homem

*

negligência

líria porto

joãozinho – menino levado
tem pompas de filho único
nada aprendeu de limites
parece que pode tudo

joãozinho põe fogo na casa
picha as paredes e o muro
com cinco anos de idade
é um menino sem rumo

quem pariu joãozinho omite-se
não o prepara pro mundo

*

quinta-feira, 9 de junho de 2011

peleja

líria porto

por mais perigo que haja
por mais difícil que seja
o jeito é encarar a morte
quando a vida nos rejeita

*

quarta-feira, 8 de junho de 2011

saudade

líria porto

abraço a tua ausência
ela preenche meus braços
chego a sentir o teu cheiro
eu beijo o ar
                   e desfaço-me

*

segunda-feira, 6 de junho de 2011

cúmplice

líria porto

eu tenho um caso comigo
faço-me companhia
dou-me livros joias mimos
raramente há uma briga
quando acontece perdoo-me
levo-me a um passeio
permito-me breves namoros
e ao fim de tudo concluo
melhor para mim
só a líria

(ainda bem que consigo)

*

quinta-feira, 2 de junho de 2011

(publicado no livro olho nu - ed. patuá) miragem

líria porto

eu moro em casa com muro
tenho em mira um par de asas

tomara a liberdade
               não seja mera ilusão

*

quarta-feira, 1 de junho de 2011

o avião

líria porto

corro muito pego embalo voo alto
ultrapasso nuvens e montanhas
deixo carros caminhões bois ou cavalos
tão pequenos quais brinquedos
de criança
:
sou um pássaro de aço

*

sexta-feira, 27 de maio de 2011

miopia

líria porto

a casa da minha infância
agora tem olhos tristes

trocaram suas janelas
(alegria escancarada)
por basculantes

*

quinta-feira, 26 de maio de 2011

torre de pisa

líria porto

plantaram um campanário
numa cova bem rasinha
toda vez que bate o vento
ele se inclina um cadinho
cambaleia enquanto hesita
até parece com a gente
depois das taças de vinho

pileque ou vertigem?

*

terça-feira, 24 de maio de 2011

recém-nascido

líria porto

eu nunca vou me esquecer
do menininho em meus braços
um passarinho no ninho
um bezerrinho no estábulo

*

dos monstros

líria porto

causa-me espécie
uma espécie de gente
que nem gente se parece
que espalha sua tara
entre pernas inocentes

*

valores

líria porto

colada em meu olho me cega
a um metro de mim é só uma moeda
(além da esquina nem vejo)
:
quem quiser que a_pegue
eu não

*

segunda-feira, 23 de maio de 2011

marilyn

líria porto

lua escandalosa
levanta a saia de roda
bem no meio do céu

*

domingo, 22 de maio de 2011

estigma

líria porto

sem olhos para a leitura
deixava de aprender com letras e palavras
a sentença do mundo

*

pós-guerra

líria porto

evitas meus olhos
depois –– barco à deriva
cais em contradição
atracas-te ao meu corpo
e navegas

*

quinta-feira, 19 de maio de 2011

ploft

líria porto

bolhas de sabão
bonitas e pereciveis
como as paixões

*

quarta-feira, 18 de maio de 2011

ao vento

líria porto

dão cambalhotas
e dançam e flutuam
as folhas mortas

*

pneumo

líria porto

habitam-me uns bichos
que miam ganem e piam
enquanto chio

*

segunda-feira, 16 de maio de 2011

folha seca

líria porto

dei de voar
lembro-me que nem tenho asas
e estou no espaço

o vento me pega
o vento se encarrega

*

(publicado no livro asa de passarinho - ed. lê) - rinoceronte

líria porto

um besouro cresceu desmedidamente
e trocou sua carcaça dura como um osso
pelo couro grosso

*

fera

líria porto

fui lá fora ver a lua
a rua estava deserta
levei francisco comigo
ia apresentá-lo à bela
uma nuvem fez fuxico
fiquei fula

*

jogo de cintura

líria porto

um tremendo pé na bunda
de romper os ligamentos

para relações futuras
pedra cimento e ferro
pra reforçar
o alicerce

*

domingo, 15 de maio de 2011

dívida atroz

líria porto

posso
devo?
:
perfurar um poço cavar uma fossa
preencher os ocos de absoluto
rasgar esse luto vestir-me
de púrpura

*

sexta-feira, 13 de maio de 2011

grises

líria porto

para os pelos
(pelos pálidos)
branqueados
desde cedo
eu concedo
muitas tardes
de sossego
muitas noites
de (a)luares

*

quarta-feira, 11 de maio de 2011

experiências

líria porto

puxei o mar pela borda
joguei-o dentro de mim
com espuma peixes
ondas

agora busco outra fórmula
vou desviar os riachos
do rumo dos olhos

(não sei se dou conta)

*

*

entre achados e perdidos

líria porto


já fui criança
meus olhos maiores que o mundo
nunca viram bem

de lá para cá 
tateio e uso 
       ósculos

*

superego

líria porto

a sociedade impõe
(na verdade ela o exige)
sede assim
sede assado
e a vocação para o cru
para o nu o natural
vai pelo ralo

e viramos massa amorfa
ficamos todos na moda
iguais
:
sem tirar
             nem pôr

*

terça-feira, 10 de maio de 2011

perfumoso

líria porto

se ele passar por mim
fecho os olhos bem fechados
e respiro fundo

*

ai mamãe

líria porto

não me belisques
eu acho isso covarde
quando me apertas arde
eu não posso revidar
e sinto raiva de ti
a pessoa amada
:
contar com quem
se me agrides?

*

segunda-feira, 9 de maio de 2011

no lago

líria porto

pulo de cabeça
e tenho fraturas

a temperatura?

trinta graus abaixo
de zero

*

se não queres tem quem queira

líria porto

não vou lavar o teu prato
não vou guardar teus talheres
nem tua cueca

cuido dos meus objetos
tenho o meu trabalho
contribuo com a metade
das despesas

ah
quem acordar por último
arruma o quarto

*

velho

líria porto

tem vexame não
é só ir devagarinho
que vinga faísca

*

à malagueta

líria porto

com um ela faz sexo
com o outro faz amor
assim cozinha e come
o seu baião de dois

(dona flor é fogo)

*

osama nas alturas

líria porto

a atirar estrelas com estilingue
a acertar carnes trêmulas
e calças borradas

*

domingo, 8 de maio de 2011

desenlace

líria porto

deixa-me dormir deste cansaço
não me fales de abandono ou despedida

quando eu retornar da morte em vida
desatamos nós – ficamos livres

*

sábado, 7 de maio de 2011

rumores

líria porto

nada peço à palavra
mas ela se entrega
então faço verso

com ruído
           ou silêncio

*

nós entre estas paredes

líria porto

o mundo inteiro lá fora
e o que mais te assombra
é eu querer estar sóbria

*

das necessidades

líria porto

passarim papo amarelo
quer farelo quer alpiste
ele sabe o quanto é triste
passar fome passar frio
e não ter sequer um ninho
pra pousar

*

quinta-feira, 5 de maio de 2011

(publicado no livro olho nu - ed. patuá) peixe

líria porto

a amante do vovô
uma sereia linda
de olhos verdes
que a vovó chamava
de piranha

*

quarta-feira, 4 de maio de 2011

per_verso

líria porto

o que esperas que eu faça
que eu traia mate morra
por instantes na gangorra
dos teus braços?

(não sou quebra-galho)

*

terça-feira, 3 de maio de 2011

aperto

líria porto

prisões de ventre
alças intestinais
algemas anais
façam o general
arriar as calças

*

domingo, 1 de maio de 2011

dodói

líria porto

entre lírico e irônico
um versinho afônico
chora tosse espirra
às vezes embirra
em minha garganta
mas não adianta
ele sobrevive
mesmo que eu morra
de amigdalite

*

aquarela

líria porto

um lenço verde
a blusa amarela

saia azul celeste
bordada de estrelas

uma faixa branca
para o grande laço

(libertas quae sera tamen)

todas as bandeiras
de todas as raças

*

sábado, 30 de abril de 2011

karma

líria porto

a gente não procura e acha
dá de frente com a criatura
e o fato dura toda
                      a eternidade

*

quinta-feira, 28 de abril de 2011

é sempre assim

líria porto

acorda-se com um dia a menos
e uma longa vida cada vez
mais curta

*

para uma dona doida

líria porto

chorei quando vi adélia
ela disse - não carece

perguntei-lhe como não
a emoção obedece-nos?

*

fundão

líria porto

dentro da noite
onde moram os pesadelos
quisera bem entendê-los
livrar-me de qualquer sombra
dos medos que habitam 
                                o son(h)o

(careço fazer análise)

*

quarta-feira, 27 de abril de 2011

lisa

líria porto
nova na família
esguia esbelta
parece maneguim
na passarela

*

terça-feira, 26 de abril de 2011

gemido

líria porto

passarinho fica mudo
durante a troca das penas

as nossas penas não mudam
ficam a_penas doloridas

*

sorrateiro

líria porto

igual o envelope
que o carteiro coloca
debaixo da porta

*

noites de luana

líria porto

fios por todo o corpo
nas pernas peito virilha
axilas braços pescoço
e no rosto –– barba cerrada
bigodes
sobrancelhas grossas
:
amava-a
nu em pelo

*

para durar para sempre

líria porto

tudo é igual no começo
os beijos as juras o carinho
então meu bem eu me vou
antes do início do fim

*

abano (quem tem pena de passarinho - ed. periópolis)

líria porto

a moça o leque o movimento
a imensa borboleta que inventou 
de aventar o vento

*

domingo, 24 de abril de 2011

cúmplices

líria porto

fosse quem fosse
viesse nu peito aberto
despido de preconceitos
pisasse leve nas pétalas

eu
       retirava
                     os
                           espinhos

*

relíquias

líria porto

objetos novos recém-adquiridos
não fico à vontade

prefiro sapatos surrados
roupas puídas móveis antigos
homens velhos

*

perfis

líria porto

lilica tem gatos
as irmãs têm cães
precisam de afagos
abanos de rabos
lambidas nas mãos

lilica é arisca
gosta de bichos
             à distância

*

o diabo da cruz

líria porto

nasci co'as mãos velhas
marcas de vassoura sabão enxada
d'outras encarnações
:
eu já escrevi com pena

*

sábado, 23 de abril de 2011

de_vagar

líria porto

álcool e cigarro
suicídio clássico
em câmara lenta

*

repartição

líria porto

mesas abarrotadas
papéis de um lado e doutro
e a fofoca solta
na boca dos funcionários

*

terça-feira, 19 de abril de 2011

(publicado em cadela prateada - ed. penalux) - a_manhã vem depois

líria porto

a lua flutua entre o céu
e a boca de fumo

um cão uiva
uma ruiva me acena
e a cena esbanja-se
de bela

fico doido
e é doído pensar
que a ilusão
é uma bolha

(cresce e
míngua)

*

segunda-feira, 18 de abril de 2011

chá de cadeira

líria porto

tempo de quem espera
tempo de quem virá

para alguns o tempo é eterno
um estalo para outros

um piscar de olhos
um raio

*

pestana

líria porto

tarde molenga
de ócio e preguiça
nada me atiça
e eu vaga_bunda
cochilo no colo
do mundo

*

domingo, 17 de abril de 2011

em minas

líria porto

quem não mordeu vai morder
a isca é um pão de quê?

*

d'alentejo

líria porto

quem canta os males espanca
(à florbela sim senhor)
o mal d'amor decantado
tudo em versos decassílabos
duas quadras dois tercetos

(a quem gosta um prato cheio
a quem não gosta
                              um vazio)

*

sábado, 16 de abril de 2011

(publicado no livro olho nu - ed. patuá) desmerecimento

líria porto

à mulher que se disputa
o céu a terra a florada

à mulher que se diz puta
nada?

*

sexta-feira, 15 de abril de 2011

à luz da vela

líria porto



foto de fabio reis

acordos pra toda a vida
fazemos com nossa sombra
só ela nos acompanha à hora 
do desencontro

*

alarme

líria porto

nas horas em que tudo pesa
em que a carga é excessiva
podemos sair dos trilhos
:
parto ao primeiro apito

*

queda de (a)braço

líria porto

não vou deixar que mantenhas
as coisas como as decides

se aí montanhas são firmes
em minas somos de ferro

(dá-me um abraço)

*

quinta-feira, 14 de abril de 2011

mouro

líria porto

seu agasalho era o sol
com olhos de dromedário

*

quarta-feira, 13 de abril de 2011

maria dá pena

líria porto

olhos inchados
outro hematoma
torção no braço
todos os roxos
dentes quebrados
queimados graves
nova desculpa
caiu na escada
trombou na rua
passava roupa
queimou no forno
todos sabemos
existem monstros
dentro das casas
e nas escolas
e nas cadeias

(não tenhas medo
e nem te cales
não fiquem impunes
babá marido
pais professores
cabos soldados
que violentam
que te agridem
:
não sejas cúmplice
põe a boca no mundo
denuncia-os)

*

terça-feira, 12 de abril de 2011

cri-cris

líria porto

coisas pequeninas
que não incomodam
quaisquer circunstâncias
para os picuinhas
são muito maiores
que as relevantes

*

vigília

líria porto

já faz algum tempo
o sol dos seus olhos
ficou embaçado

não vai à varanda
não abre as cortinas
e nem cantarola

preciso ajudá-la
conversar um pouco
sua dor é tão triste

sinto-me impotente
porém passarinhos
também trocam penas

sofrimentos passam
fecham-se as feridas
ficam as cicatrizes

então calo o bico
e daqui de fora
monto sentinela

*

segunda-feira, 11 de abril de 2011

desumanidades

líria porto

uma vai e nem é bem tratada
a outra  mantida a pão-de-ló
faz cu doce

*

(à sombra da torre eiffel)

líria porto

falamos a mesma língua
lambemos o mesmo doce
cuspimos o mesmo sal
quase igual um casal
mas somos só um caso
                        
e casual

*

urgências

líria porto

a vida ruge batom
minissaia e salto
plataforma

*

domingo, 10 de abril de 2011

gueixa

líria porto

acaso tu queiras
um amor adotivo
manda me chamar
estou disponível

tu deitas no canto
afago-te a pele
enxugo teu pranto
cuido dos teus pés

então tu me falas
das tuas fraquezas
ouço-te em silêncio
resguardo segredos

enquanto precises
eu fico a teu lado
depois venho embora
e caso encerrado

(se é que tu deixas)

*

sábado, 9 de abril de 2011

cobertor

líria porto

sem nuvem urubu avião
um azul nuzinho cobria
meu corpo

*

crudelíssimo

líria porto

o tempo me cega
põe-me espora freio arreio
e berra sem compaixão
sossega sua égua velha
o teu passo mudou
o teu corpo está frouxo
é bom que te lembres
o teu macho é um
                   pangaré
:
(sim - senhor)

*

sexta-feira, 8 de abril de 2011

perfilados

líria porto

eucaliptos  exército de soldados rasos
imposição de fardas
:
verde a qualquer preço

*

quinta-feira, 7 de abril de 2011

sofrimento

líria porto

a dor de uma ausência não cabe no infinito
porisso se aninha na alma da gente
ali faz morada até que nos mata
esmaga sem pena
:
com o salto de um sapato luís xv

*

quarta-feira, 6 de abril de 2011

agonia

líria porto

como estarás a estas horas
o escuro se estira e ainda espero
a aurora

*

terça-feira, 5 de abril de 2011

decibéis

líria porto

sonoras sirenes
serenas senhoras

palavras se encaixam
sentidos se chocam

*

extrassístole

líria porto

coração para dispara
há muito não me obedece
faz hora co'a minha cara
parece samba de breque

*

no reino da dinamarca

líria porto

há algo que sobra
no prato da nora

a sogra

*

ímã

líria porto

passarinho atraído pela cobra cascavel
precipito-me no abismo dos teus olhos
:
voo em queda

*

segunda-feira, 4 de abril de 2011

estêvão

líria porto

não me estendeste uma estaca um esteio
não expressaste um gesto - a mim
gestante de um filho teu

*

a um osso duro de roer

líria porto

na verdade
o que eu preciso
é que tu tenhas siso
para não me amolares
com pedidos incisivos
e caninos

*

pés de moleque

líria porto

o pai pagava as contas
a mãe varria os cantos

(farinha e rapadura)

os filhos
nem sei quantos

*

por amor

líria porto

rasgar-se na carne
depois emendar-se
com ponto paris

*

cale-se

líria porto


em momentos difíceis
a queda acontece
e ninguém contém os estilhaços
do (res)sentimento

*

domingo, 3 de abril de 2011

bem querer

líria porto

leite afeto
cheiro de criança
servir-me-ão de alento
no rigor do inverno
na proximidade
da velhice

*

sexta-feira, 1 de abril de 2011

na beirada do telhado

líria porto

maritaca acorda ataca
faz barulho canta grita
maritaca come coco
quebra a casca
com o bico

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

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