quinta-feira, 30 de abril de 2015

caolho

líria porto

quem eu quero não me acresce
quem me quer eu não alcanço
e as uvas estão vesgas

*

caríssimo

líria porto

em arrumações de gavetas
encontrei a tua foto
e nada mais justifica
mantê-la em meu poder
razão pela qual
envio-ta

melhor não sejas
devorado pelas traças

até

*

a seco

líria porto

o rato aparece
o gato nem pisca
parece de pedra

o rato aproxima-se
prepara-se o gato
saltar é preciso

o rato entre os dentes
o gato garante
a sobrevivência

(a fome é crua
cruel é o agente)

*

quarta-feira, 29 de abril de 2015

o urubu

líria porto

longas as asas
e voam em círculos
rondam rodeiam
:
no chão o corpo
o osso exposto
a carniça
o cheiro forte
a morte
o lixo

*

ouriço

líria porto

meu amor é um porco espinho
tão irritadiço que me beija
e tira sangue

*

mãos vazias

líria porto

são mil pensamentos
nem sempre do bem

o diabo se aproveita
dos vãos

*

l.e.r.

líria porto

dor real
de tendinite

a poesia me mata
aos pouquinhos

*

ininteligível

líria porto

ele era mangatopatupa
ela era morlé - não falavam
a minha língua

(fiquei no fundo do moço)

*

segunda-feira, 27 de abril de 2015

festejos

líria porto

quem quis segurar meu riso
impedir-me a gargalhada
dançou sozinho

quem baila comigo
tem cócegas
na alma

*

o cavaleiro

líria porto

afundou um chucho no meu peito
para ver se haveria sangue azul
quando viu jorrar de mim o mar vermelho
montou seu alazão
rumou pro sul

bem feito
sou nobre doutro jeito
e sou plebeu

*

domingo, 26 de abril de 2015

doma

líria porto

sete anos  idade da razão
pecador

(eu briguei com deus foi justo nesse instante
com ele e com seu representante)

não seria ovelha
parte da manada

eu não nasci para améns

*

sábado, 25 de abril de 2015

perspicazes

líria porto

esta queda pelos tímidos
até me deixa tonta
no entanto é uma delícia
dentro de um tímido há encantos
e detalhes – os mínimos
a se revelarem muito
em pouco

*

sexta-feira, 24 de abril de 2015

conveniências

líria porto

a culpa é sempre do outro
corrupto subversivo
as suas queixas o livram
jamais se vê como o torto

*

quinta-feira, 23 de abril de 2015

lasca

líria porto

a palavra dá seu jeito
qual pedra em mão de menino
não adianta botar freio
nem cabresto
palavras rompem vidraças
:
o meu verso é estilhaço
fragmento de mim mesma
deixado por onde passo

*

temporal

líria porto

mar de chuva
dilúvio
só faltou noé e sua arca
e boiava tudo
sobretudo

*

sete véus

líria porto

a passarela
onde a luz desfila
e faz striptease
é o arco-íris

*

sem peias

líria porto

clandestino
em completo anonimato
enfiava-me pelo mato
a esconder de onde vinha

cresciam-me os cabelos
as unhas barba os bigodes
eu vivia igual um bicho
pra escapar da timidez

e como um bode eu pulava
corria como um corisco
cavalgava selvagem
sem sela freio ou estribo

(dono da minha vida)

*

quarta-feira, 22 de abril de 2015

possibilidades

líria porto

muito é pouco
mais é menos tudo é nada
e o que estava certo pode dar
errado
(ou não)

pouco é muito
menos é mais nada é tudo
e o que estava errado
pode continuar
(ou não)

quem se aventura?

*

implacável

líria porto

tu te escondes
finges-te estátua
a morte te encontra
e te carrega

*

terça-feira, 21 de abril de 2015

adoção

líria porto

a menina chamava meu nome
tinha medo de estar onde estava
eu corri pra salvá-la do medo
percebi que era eu que chorava

abracei-me tirei-me do berço
consolei-me e enxuguei
minha lágrima

*

dos verdes e dos vermelhos

líria porto

enforcaram-no
arrastaram seu corpo pela viela
esquartejaram-no salgaram suas terras
penduraram sua cabeça no poste
servisse de exemplo a quem clamasse
liberdade

nos dias
de agora
basta
optar
pelos
pobres

*

segunda-feira, 20 de abril de 2015

planejamento

líria porto

para nascer levei meses

morrer lentamente
demanda dor e doença

melhor seja
pá buf

*

real

líria porto

as propostas – todas elas
muito boas pra quem gosta
para mim que sou avesso
achei todas sem propósito

não vou passar minha vida
fechado num escritório
a ganhar muito dinheiro
trocar-me por euro ou dólar

eu vivo com o que tenho
e sou feliz quando posso

*

concentração

líria porto

de costas para a janela
não queria olhar lá fora
de frente para a parede
branca imensa
sem história
pra pensar em quantas vezes
somos cegos
temos vendas nos olhos

*

sábado, 18 de abril de 2015

de corpo presente

líria porto

já não estavas mais lá
e a tua mortalha
sou eu

*

rastejante

líria porto

dona ofídia espalha peçonha
e tem língua bipartida

*

eclipse

líria porto

quem te viu
mal me vê

*

prostração

líria porto

o peso de mim
sobretudo
carregar o cansaço
e viver e assistir
rodar mundo
sem mover
uma palha

*

sexta-feira, 17 de abril de 2015

fim

líria porto

cerram-lhe os olhos preparam seu corpo
vestem-lhe o terno juntam-lhe as mãos e os pés
cobrem-no com flores

quatro homens o transportam
o morto pesa

*

quinta-feira, 16 de abril de 2015

definitivas

líria porto

palavras concretas
sangue grão pedra
canavial
despertam o poeta
ou levam-no
a nocaute

*

quarta-feira, 15 de abril de 2015

decisão

líria porto

depois duma doutra doutra
e doutra
concluiu - mulher
só a mamãe

(e com outro
foi feliz)

*

do valor

líria porto

a galinha faz estardalhaço
não é nada fácil botar ovo
quem quiser comer sua omelete
trate de pagar por tal esforço

*

relativo

líria porto

um dia é mais um dia
na vida de um menino

na vida de um velho
não cabe desperdício
qualquer minuto
é tempo

*

terça-feira, 14 de abril de 2015

o primeiro beijo?

líria porto

curiosidade
contar pras amigas
que naqueles tempos
era ter coragem
desbravar caminhos
apenas um selo
um roçar nos lábios
de qualquer menino
saído dos cueiros

*

transeuntes

líria porto

passos leves passos duros
até mesmo trôpegos
pelas ruas
pelas avenidas

da minha janela
os jovens os velhos
crianças de uniforme
o meu olho nu

(cada qual
um mundo)

*

segunda-feira, 13 de abril de 2015

pinote

líria porto

quem sei de mim só eu dentro
(mas nem tanto)
muita vez eu me distraio
eu me traio perco o foco
e para reencontrar-me
resgatar minha pessoa
necessito isolamento
vigilância atenção
além disso
vejam bem
já busquei uma coleira
amarrei-me fortemente
acorrentei-me a um tronco

(porém contudo
esperneio)

*

sábado, 11 de abril de 2015

incineração

líria porto

queimei cartas velhas
não voltaria a lê-las

(palavras antigas
não traduziriam atuais
sentimentos)

*

conta-gotas

líria porto

esvaio-me – a cada dia
o frasco de vida
esvazia-se

*

sexta-feira, 10 de abril de 2015

a velhota

líria porto

foram muitos pensamentos
conexões raciocínios
que depois tomaram rumo
voaram co'as mariposas
a vovó ficou caduca
não fala coisa com coisa
:
acaso alguém lhe pergunte
quantos anos completou
sem vacilo ela responde
vinte e sete ou vinte oito

*

quarta-feira, 8 de abril de 2015

definição

líria porto

atrás das pálpebras
entre o lençol e a coberta
os sonhos

*

sabedoria

líria porto

a água procura caminho
nem sempre o mais curto
o rio faz curva
percurso mais fácil

*

terça-feira, 7 de abril de 2015

suspiros

líria porto

de lá da neblina
onde quer que estejas
pensarás em mim
nem que seja às vezes?

(não te esqueci)

*

malditos

líria porto

arma que mata menino
soldado que abusa da farda
homem que bate
em mulher

*

inércia

líria porto

pés e mãos atados
nenhum movimento
o teto desaba
mantém-se o silêncio
qual imagem sacra
no altar da igreja
estátua na praça
piso de cimento

*

segunda-feira, 6 de abril de 2015

da sisudez

líria porto

senhor de muito critério
muito sério –– como poucos
queria fazer o mundo
girar pra trás

quando o viu pernas pro ar
deixou a casa a família
e louco de fantasia
rasgou a realidade

*

parentesco

líria porto

não sabe se solta ou segura
a sua máscara

se solta ficam sabendo
da sua cara de pau

se a segura mantém-no
sob sua guarda

(nunca foi seu cúmplice
mas ainda é seu pai)

*

paralela

líria porto

linha reta para o leste
vou na mesma direção
(entre a linha do equador
e o trópico de capricórnio)
pelas montanhas de minas
chego no espírito santo
atravesso o atlântico
desembarco na namíbia
caminho até moçambique
e já no oceano índico
piso em madagascar
nos desertos da austrália
um mergulho no pacífico
encontro o chile a bolívia
e de novo no brasil
no mato grosso do sul
dou um pulinho até minas
e retorno à minha cama
em plena araxá city

(sono que é bom
nenhum)

*

domingo, 5 de abril de 2015

fracionados

líria porto

tantos solitários
como arquipélagos
mesmo estando próximos
cada um por si

*

necessidade

líria porto

palavras concretas
não de amor ou de ódio
palavras que encham a barriga
arroz feijão carne ovo
farinha

*

sábado, 4 de abril de 2015

cascavel

líria porto

quem já dormiu com a cobra
quem já provou do veneno
de longe sabe o chocalho

parece o céu tem um nervo
um fio desencapado
:
careço dum para-raios

*

sexta-feira, 3 de abril de 2015

a dona

líria porto

já não pinta os cabelos
não persegue a moda
não usa esmalte ou batom
tenta fazer o que lhe agrada
o que pode
e nada a ofende

só a incomodam
dores e tristezas
inevitáveis

(ainda gargalha
fala palavrões
e manda os incautos
às favas)

*

quinta-feira, 2 de abril de 2015

possibilidade

líria porto

poemas são promessas
palavras ao vento
que se dão a nós
quando bem entendem
:
pode ser que venham

*

alforria

líria porto

alguém me acorrenta estala chicotes
fere as minhas costas e eu
não me rendo

*

a dita

líria porto

dura tão dura
que só pede-a de volta
quem sabe nada de história
quem se nutre de mentiras

*

a sepultura

líria porto

um lugar um leito ínfimo
para acomodar os ossos
:
uma cova

*

pequeninos

líria porto

beija-flores são o máximo
bonitos na cor das asas
e no formato

há coisas mínimas assim
como a flor de miosótis
a menina dos olhos

o perfume no frasco

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

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