terça-feira, 30 de abril de 2013

retalhos

líria porto

rosas vermelhas – tão belas
(não vou colhê-las)

vou deixar que o vento as leve
(suavemente)

que elas pousem na relva
(quais borboletas)

e teçam um lindo tapete
(o mais efêmero)

onde o meu amor se deite

*

segunda-feira, 29 de abril de 2013

lugarejo

líria porto

a rodovia como espinha dorsal
a igreja no local mais alto
e de um lado e doutro
ruas sem calçamento
o boteco a venda a butique
o posto de saúde o grupo escolar
a casa lotérica a agência da caixa econômica
o ferro-velho os cavalos amarrados nos postes
os homens de chapéus a poeira
a camionete
o fusca
eu

*

sábado, 27 de abril de 2013

gasta

líria porto

faca amolada na pedra da pia
cortava bifes cebola alho
couve tomates

a lâmina
foi-se

*

quinta-feira, 25 de abril de 2013

mais que o peso das palavras os silêncios nos reprovam

jardineiro

líria porto

levei flores pelos quatro cantos
e elas eram leves

hoje as flores me carregam
e eu não quero ser
um fardo

*

a luz

líria porto

encontra uma fresta e penetra
na escuridão

*

quarta-feira, 24 de abril de 2013

pichação

líria porto

escrevi meu recado
no muro – a polícia me procura
sou uma ameaça

*

terça-feira, 23 de abril de 2013

aftas

líria porto

como meteoros
reabrem-se as crateras
sobre minha língua
:
versos de rapina
comem-me os miolos

*

na pele

líria porto

a tendência que eu tenho
de andar com as minorias
é u'a marca de nascença

*

rumo

líria porto

ninguém traça meus caminhos
só eu mesma

diante da encruzilhada
pego a estrada da esquerda

*

segunda-feira, 22 de abril de 2013

fera

líria porto

a bisavó tinha um código – de ovo virado
penteava os cabelos num coque
:
o coronel nem triscava

*

martírio

líria porto

depois que tu foste embora
martela dentro do ninho
o tique-taque das horas

*

blefe

líria porto

nem me pergunto quem sou
para não cair na tentação
de mentir e me enganar
como os outros

*

orador

líria porto

no canto do olho nenhuma nota musical
em compensação no céu da boca
palavras sonoras

*

domingo, 21 de abril de 2013

in_verso

líria porto

o sono sumiu e agora
quase hora de ir pro trabalho
a memória me falha e meus olhos
não aguentam o peso
das pálpebras

*

minha sombra

líria porto

escapa-me dos pés
não me obedece o ritmo
gira à volta de mim
:
puxa-me o tapete

*

caduco

líria porto

chove estrela
pedrada de santo
e um galo canta
na minha testa
:
estilhaço di_verso
furo na cabeça
cosido com fio
de prata

(enlouqueço
quando esqueço
o que se passa)

*

medonhas

líria porto

as noites do inverno tão frias tão longas
e mais se prolongam se não chega o sono

sucedem-se as sombras as cismas os sustos
amontoam-se medos pavores pesadelos

tremores perpassam-nos há os calafrios
no escuro aparecem os olhos
dos monstros

*

sábado, 20 de abril de 2013

afoito

líria porto

de sonhar o que não deve
de dever o que não pode
de poder o que não vai
de ir e se arrepender
amarrou pedra no pé
e pulou no rio

*

ambiguidades

líria porto

estrelas dormiram
debaixo da nuvem
a lua cochila
eu espero o sono

a noite é comprida
mas a vida é curta
quem sabe eu decifro
o enigma

amanhã
será ontem

*

desastre

líria porto

eletrocutados
:
um raio cai sobre o lago
e extermina os peixes

*

sexta-feira, 19 de abril de 2013

apelo

líria porto

não vai durar para sempre
então querido não suma
tudo se perde na espuma
a vida é sem complacência

*

quinta-feira, 18 de abril de 2013

09 de outubro

líria porto

antes inalcançável –– agora ali
nu sobre a pedra nem parecia
deus

pousei meu rosto em sua barba
colei meu corpo no seu
o sonho se desfez

o vento espalhou o pó de nós dois
e éramos um só

*

fumante

líria porto

temo te pertencer
ser tragada pela tua boca
e virar fumaça
guimba

*

quarta-feira, 17 de abril de 2013

engodo

líria porto

arriscou as fichas
na micha proposta
de felicidade

*

quase inverno

líria porto

o sol do lado de lá
(sua luz é fugidia)
parece querer falar
dos segredos do poente
como se nos dissesse
vivam intensos outonos
antes que se apaguem
as labaredas

*

terça-feira, 16 de abril de 2013

canais obstruídos

líria porto

em estado líquido
vez por outra evaporo
mas choro pouco

*

desperta_dor

líria porto

antes do sol nascer
já o ronco dos motores
invade ruas estradas

ônibus trens caminhões
transportam trabalhadores
as suas tralhas a carga

já tem pão na padaria
o gado pasta o galo canta
bom dia

*

segunda-feira, 15 de abril de 2013

não mais

líria porto

durar o tempo de amolecer o olhar as palavras
e morrer com a textura – a profundeza
de um lago

*

mamaluca

líria porto

aquela avó índia caçada no laço
no bucho um moleque de olhos azuis
igual o maldito que a deflorou
exilou-se da tribo
da terra
da vida
parou de sorrir
mas cuidou bem da cria
pra que nós – sangue roxo
existíssemos

*

pássara

líria porto

outono –– abril
o azul e o céu
sem limite

*

domingo, 14 de abril de 2013

com_bustão

líria porto

cambada cambeta
cambitos com botas
combinam com o quê?

*

sábado, 13 de abril de 2013

gana

líria porto

dizer ali na lata
mas a voz não sai

entala na goela
que nem espinho

*

regressão

líria porto

de manhã de tarde à noite
todo dia a toda hora
sinto a falta de um tesouro
que eu tinha dentro / fora

a infância a inocência
duram pouco duram nada
ser adulto tem um peso
o da água estagnada

*

quinta-feira, 11 de abril de 2013

traste

líria porto

um gato ronrona em meu peito
detona-me o pulmão
e eu deixo que o gato me consuma
como quem fuma um charuto
cubano

*

reviravolta

líria porto

de pernas para o ar
ponho as pernas para o ar
e espero que me ames

*

tarefas

líria porto

pratos acumulam-se na pia
(não penso em lavar vasilhas)
desvio os olhos

há muita poeira sobre os móveis
(não vou usar aspirador nem pano de limpeza)
fecho os olhos

roupas despencam-se dos cabides
(não penso em pendurar roupa nenhuma)
quero é dormir

e a cama está sem lençol

*

incondicional

líria porto

sem começo meio fim
amamo-nos desde sempre
e quando não existíamos
já havia o sentimento
que as grandes mãos invisíveis
entregam às mães e aos filhos
pra durar eternamente

*

quarta-feira, 10 de abril de 2013

esvaziamento

líria porto

verteu lágrimas a madrugada toda
a manhã a tarde e à noite percebeu
era ele próprio a sua última
gota

*

terça-feira, 9 de abril de 2013

benefício

líria porto

atravessa o rio das piranhas
e chega à margem mais morto
do que vítima

*

segunda-feira, 8 de abril de 2013

aflição

líria porto

especulo sobre mim – eu quero saber
e as respostas que me dou me afligem
eu sou assim e não sei bem o quê
e não tenho ideia do que fazer comigo

*

atrevimento

líria porto

essa onda de banda
rescaldo de redemunho
assim mal domada
cria um baita
topete

*

domingo, 7 de abril de 2013

providência

líria porto

vejo no céu uma estrela
só uma ali bem no escuro
e para que a luz não me fuja
eu tampo o furo com o dedo

*

desdesejo

líria porto

gato ingrato – passar a vida
sem unhar a minha pele
sem roçar minha virilha
sem me engatar num
bem-bom 

*

sábado, 6 de abril de 2013

abandono

líria porto

tu me negaste três vezes
passei depois muitos meses
sem me enxergar

e tanto puxei o fio
acabei puxando um rio
o mar o oceano a praia

os lençóis
d'água

*

de olho

líria porto

quanto mais penso estar certa
mais permaneço alerta
pode ser engano

*

compensação

líria porto

a vida acampa nas curvas
onde morrem os maridos
nascem as viúvas

*

ignorância

líria porto

entre o céu e a terra
se alguma coisa me emperra
esta coisa sou eu mesma

*

a carga

líria porto

jiboia de ferro
barriga nos trilhos
apito na curva

abra a porteira cambada
a boiada chegou

*

sexta-feira, 5 de abril de 2013

inconsciente

líria porto

nós temos segredos
dos quais ninguém sabe
nem nós mesmos

*

detalhes

líria porto

quando o olhar oscila
deixa bambas as certezas
e a beleza firma-se

*

causa e defeitos

líria porto

olhos sobrancelhas
pulmões rins e coração
sem falar também que a alma
pés e pernas pele e boca
nunca encantaram as pessoas
talvez daí toda a birra
com a perfeição das coisas
:
para se justificar

*

quarta-feira, 3 de abril de 2013

estranhos

líria porto

molhou-se em minha chuva
pisei no seu barro
brincamos nas mesmas esquinas
bebemos da mesma água
e jamais nos falamos
:
conterrâneos?

*

audácia

líria porto

passava no chão uma risca
pisa aqui se fores homem
os que pisaram ela os quis

(não é fácil peitar uma doida)

*

enrascada

líria porto

eu lhe disse nunca mais – não deveria
não se envolve com poesia impunemente
ela entra pelos poros pelas veias
e comanda nossa alma
nossos nervos
:
todo poeta é refém

*

terça-feira, 2 de abril de 2013

estrela

líria porto

ela tem ponta tem brilho
é presunçosa atrevida
mesmo assim eu a prefiro
à que se faz de santinha

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

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