sexta-feira, 31 de agosto de 2012

passatempo

líria porto

o amor que eu quis passou por aqui mas não veio
do alto-mar me acenou e desde então eu só fiz
esperar no ancoradouro

enquanto espero
namoro os marinheiros

*

índia

líria porto

não fiz enxoval de noiva
o amor não me exigiu
tamanho sacrifício

eu fui com a roupa do corpo
com a cor da minha pele

*

revolta

líria porto

a poesia fugiu
desertou-se do meu verso
me deu um nó na garganta
no entanto eu não me calo
e só falo na injustiça

*

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

oco

líria porto

abstrato
cercado
de
concreto
:
poço

*

ceia

líria porto

o gato gabola
enrola o bigode
alisa seu pelo
senta-se ao lado
do prato predileto
:
um rato
obeso

*

exposição

líria porto

a dor é profunda
furada com broca
então ponho a bucha
um parafuso
penduro a saudade
com moldura
e tudo

(à cor do hematoma)

*

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

miséria


líria porto

nem sapatos nem chinelos
o último partira as tiras
e maria não foi à missa

doíam-lhe as rachaduras nos pés
mais ainda o deus
sem piedade

*

domingo, 26 de agosto de 2012

cofre

líria porto

no toco tem um buraco
dentro do buraco um oco
onde guardo um tanto um pouco
desse meu demasiado

*

ponta a_ponta

líria porto

eu não pensava que vovó falasse a sério
então eu mesma continuo o raciocínio
fica tão próxima a infância da velhice
que a morte deve estar
                                       ali na esquina

*

saga_cidade

líria porto

atrás um perfume e uma cor que não se apresentam
à frente o cruzamento perigoso 

se eu me distraio com o passado
haverá futuro?

atento-me

*

sem estilo

líria porto

um estalo tolo e eu desisto
(esta faca cega não me levará)
a corda de fumo é que me enforca
num toco de hollywood



*

i_tens

líria porto

um pensamento uma emoção
uma palavra
                quase um silêncio

*

a moça

líria porto

as descobertas as madrugadas
todos os mistérios e na boca
um batom vermelho
 
*

preterida

líria porto

feiosa raquítica olhos imensos
cabelos aneladinhos como pimenta do reino
a mãe preferia passear com a outra – a primogênita

aprendeu a brincar com as sombras
e as delicadezas

*

sangria

líria porto

munido de noz e com raiva de mim
salvador deu dez tiros em meu coração
depois perguntou-me
queres vinho?
:
acenei-lhe que sim – ele disse
então vem

*

sábado, 25 de agosto de 2012

insatisfação

líria porto

bem dentro da alma  no âmago
(será que alma tem estômago)
eu sinto fome de quê?

*

terror

líria porto

rente ao portão do hospital
de onde saíam os defuntos
moravam as tias beatas
e com medo do outro mundo
de alguma coisa macabra
passávamos sem nem olhar
mas hoje sei são os vivos
a nossa grande ameaça

*

plantio

líria porto

as letras
as sílabas
as palavras
a sentença
:
lavrai a língua
semeai em fileiras
todas as luzes
e sombras

*

miragem

líria porto

um homem impossível inacessível – lá longe
eu ficava na ponta dos pés estendia-lhe os braços
não lhe tocava os esc_ombros

*

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

a atriz

líria porto

com uma saia cigana
um xale de renda preta
e eu virava uma puta
uma mulher sem cabresto

depois –– a roupa trocada
e limpa de qualquer culpa
fantasiada de santa
ninguém me apontava o dedo

difícil é ficar nua
ser muitas
seres tu mesma

*

censura

líria porto

prenderam-me em camisa de força
vendaram-me os olhos
costuraram-me a boca
acorrentaram meus pés
fecharam-me as portas
mas não se aquietam
meu pensamento está solto
e é demolidor

*

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

compatibilidades

líria porto

já me disseram – o vento
é um louco alucinado
mesmo assim damo-nos bem
ele derruba
eu cato

quando estou triste ele vem
sopra a tristeza pro alto
solto uma gargalhada
sou doida às vezes
ou quase

araguari – ventania
terra de boa água
e gente incrível

(eu inclusive)

*

cabisbaixo

líria porto

o verso ataca o papel
e o poeta acovarda-se

*

analista do sistema

líria porto

nos divãs as divas – as marias ali mesmo
nas frias cadeiras da sala de espera

*

para torturar dona de casa

líria porto

poltrona no quarto não se presta à leitura
nela jogamos roupas penduramos a toalha
deixamos o guarda-chuva

(muito melhor
a privada)

*

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

tamanho

líria porto

sei de ouvir falar
dessa tal felicidade
cujo céu é o limite
:
só conheço a da formiga
dentro do açucareiro

*

armação

líria porto

não demora chove
as nuvens se fecham em si mesmas
ganham o peso dos re_banhos

*

palavras

líria porto

tatuagem e cicatriz
para obtê-las é preciso
deferi-las

*

desleixo

líria porto

meu anjo é o dodói
quem cuida de quem sou eu
ele não se toca e eu morro
de ausência

*

desnaturada

líria porto

dá teu jeito  arredonda o coração
eu vou mamar do teu peito
um amor de mãe

*

desmistificação

líria porto

quem vai me salvar
a língua
que para se manter íntegra
precisa pronunciar
tudo o que a alma sinta
:
injustiças e maldades
todas as vilanias
os gritos os palavrões
abusos e canalhices

(língua limpa
impoluta
só a de um filho
da puta)

*

terça-feira, 21 de agosto de 2012

brrrrrrrrrrrrrrrr

líria porto

o frio é abraço de defunto
dedos finos e gelados
sob nossa blusa

*

móvel

líria porto

a cama antiga
balouçava igual jangada
oscilava pelos cantos
mal suportava
os amantes

a cama moderna
madeira de demolição
firme como as caravelas
navegava sono adentro
sem balanço

(bom mesmo é dormir na rede
em cima o céu – embaixo
a grama)

*

decisão

líria porto

amei-o o quanto pude
mas quando ao final de tudo
o amor não prevaleceu
deixei-o e caí no mundo

quem sei de mim
só eu mesmo

*

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

suspiro

líria porto

muita vez eu me canso de mim
não ao ponto do autoextermínio

(quisera poder hibernar
sumir por uns tempos – enlouquecer
trocar de casca como as cobras
e as cigarras)

*

o pulo

líria porto

as patas do gato arranham o ar
era uma vez um canário

*

lugar-comum

líria porto

de tanto engolir sapos – goela entalada
gosto de cabo de guarda-chuva
tristeza aqui é mato a vida vai para o brejo
beijos foram para o ralo e mais dia menos dia
adeus viola

*

domingo, 19 de agosto de 2012

marca

líria porto

tão linda a palavra cicatriz
pena que para obtê-la
precisemos nos ferir

*

espantos

líria porto

muitas caras
uma da infância algumas da juventude
inúmeras caras maduras e agora
a da velhice
:
todo dia a cara muda

(e cega
e surda)

*

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

trêmula

líria porto

um frio tão gelado - acendo o fogo
ele me cobre com seu corpo e me beija
com sua boca de vulcão

*

a questão

líria porto

há quem se apresente igual anjo
e não passe de filho da puta

*

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

orvalho

líria porto

diante desse mar
debaixo dessa chuva
dentro dos teus braços
sou um pingo d'água

*

monumento

líria porto

no ombro
o cântaro  na cabeça
cocô de pombo

*

abandono

líria porto

vi minha sombra
pronta para partir
puxei-a pela ponta
pedi-lhe que ficasse
ela deu de ombros
a desalmada

*

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

fogão de rabo quente

líria porto

dois paus de lenha gravetos
um pedaço de jornal ou papelão
um fósforo aceso três sopros
e fumaça e esforço

*

terça-feira, 14 de agosto de 2012

cicuta-me

líria porto

é que o suicida tem ideia fixa
vê o edifício surge logo um pulo
de alguma faca escorre seu sangue
pensa em gilete olha para os pulsos
nunca se esquece dos pontiagudos
daqueles objetos perfurocortantes
das armas de fogo do cianureto
dos medicamentos
de tarja preta

é que o poeta tem ideia fixa

*

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

distantes

líria porto

hoje
especialmente hoje
uma segunda-feira
sinto a tua falta

no começo
quando o amor era farto
às segundas me dizias
aqui é meu oásis

quando precisei partir
já não eras tão assíduo
e as segundas igualavam-se
aos outros dias

hoje
especialmente hoje
uma segunda-feira
sinto a vida áspera

*

condicionais

líria porto

se o estoque é escasso
se nem se faz para o gasto
se não convém ficar sem

se o orgulho o egoísmo
cavou valas e abismos
se só se pensou em si

esperar o quê
e de quem?

*

domingo, 12 de agosto de 2012

velhos tempos

líria porto

o disco de bolero
ele me abraçava
eu fechava os olhos
quando despertava
no leito desfeito
havia silêncio

e só

*

sábado, 11 de agosto de 2012

a caçula

líria porto

borboletinha amarela
voava rente na grama
tão singela simplesinha
parecia flor do campo
colhida pela manhã

*

vida moderna

líria porto

toda manhã
um comprimido para baixar a pressão
das vinte e quatro horas
que virão

*

lixo hospitalar

líria porto

o rim que me dói é o rim que não tenho
que foi decepado pela foice do erro
que não teve enterro nem reza
ou velório

é o rim que me chora
e eu nem sei dele

*

terça-feira, 7 de agosto de 2012

ativos e passivos

líria porto

falo seco
de arranco
coisa assim de capiau
ele não
é sedoso nas palavras
tem cetim na voz
gestos de moça

apesar das diferenças
damo-nos bem
ele faz papel de dama
eu viro macho

*

novelo

líria porto

mulherzinha sensabor
(na minha opinião)
levou ele de mim
e depois quis
devolvê-lo
:
quem ela pensa que é – modelo
artista de telenovela?

(ninguém devolve meu homem)

*

dis_sabor

líria porto

o doce de fruta na tacha de cobre
o açúcar era pouco o esforço era enorme
e o fogo queimava por dentro
                                              e por fora

desculpa seu moço – estou tão amarga
tão triste e pequena com essa vida de pobre
que tudo o que faço tem gosto de cabo
de guarda-chuva

*

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

miragem

líria porto

sumiste tu de mim e de um tal jeito
procuro-te no leito não há vestígio
parece que sonhei que existias
e eras tão somente invenção minha
desejo reprimido

*

epitáfio

líria porto

enfim de mim eu me livro
em meu último capítulo
a pá de cal

*

filmagem


líria porto

a gota trêmula no raminho do alecrim
era a chuva se mostrando e se negando
a cair

precisei paciência e mão firme

*

cristal

líria porto

gargalhada de criança – mais bonita
que o marulho a ventania ou o farfalhar
da árvore

*

domingo, 5 de agosto de 2012

reflexo

líria porto

a mulher da minha vida
sem a qual sequer respiro
que caminha os meus caminhos
e me apoia e me estimula
esta que comigo peca
resguarda os meus segredos
e me protege de mim
é uma tal de líria porto
doida de pedra

*

formosura

líria porto

rosa desabrocha
abre as pernas para os homens

sua pele é como a pétala
tem maciez tem aroma

rosa encanta rosa trama
rosa espeta

rosa vermelha

*

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

patrimônio

líria porto

entre os morros e o casario
o vento assobia e dá voltas

faz frio  isso faz  mas a história de minas
dá lustres no brio e revela-se nas curvas
sob o som dos sinos

*

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

metáfora

líria porto

matar o mito é mutilar o motor
que move o imaginário

*

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

inevitável

líria porto

por mais que fechemos os olhos tapemos nossos ouvidos
fujamos das evidências a morte se faz presente
mais dia menos dia

*

sutileza

líria porto

não sê tão direto
põe sobre a mesa o cheque
(se possível em branco)
jamais o dinheiro
:
e não reclames

*

senões

líria porto

não sei o que fez o que fiz
só sei que abalou-me a raiz e fiquei
triste 

por um traste um alpiste
senti-me infeliz

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

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