sábado, 30 de junho de 2012

leitor

líria porto

estou aqui / estou lá
o livro é meu passaporte
meu transporte minha asa
ele me escreve e me lê

*

cais

líria porto

na cama
eu embarco
e desembarco
do sonho

*

sexta-feira, 29 de junho de 2012

paizinho

líria porto

hoje ao rever a tua foto retorno
ao homem que me pôs no colo
a primeira vez

*

quinta-feira, 28 de junho de 2012

a construção

líria porto

o cimento as pedras – feito o alicerce
um tijolo outro todas as paredes a laje o telhado
os canos os fios as louças as portas as janelas
depois o reboco as trancas os vidros
a pintura

tempo e trabalho para que tenhas
um teto

*

covardia

líria porto

para ser sincero
eu só sei fingir
faço cara alegre
nas horas mais tristes

quando alguém me fere
eu digo – não dói
pensam que sou forte
verdadeiro herói

recebi medalhas
condecorações
lágrimas tremulam
sob os meus olhos

*

quarta-feira, 27 de junho de 2012

ar_rasante

líria porto

estou triste
e não quero alpiste nem jiló
se uma cobra vier der o bote
deixem que o veneno
me mate

(ninguém tenha pena de mim
nem me ponha debaixo
da asa)

*

terça-feira, 26 de junho de 2012

enredo

líria porto

conheço-te mais que a mim mesma
e tu me conheces mais que ninguém

por isso mantemo-nos à distância

é terrível saber dos avessos de nós
e que há nós nos avessos

amarrações

*

segunda-feira, 25 de junho de 2012

saliva

líria porto

habito
a língua
e dentro
da boca
tenho
um idioma

*

domingo, 24 de junho de 2012

das grandezas

líria porto

de um lado o mar do outro as montanhas
entre as montanhas e o mar nós  os grãos
de areia

*

sábado, 23 de junho de 2012

infuturo

líria porto

não fales assim - dobra a língua
tuas gírias me ferem os ouvidos e olvidam
o passado e os presentes

*

quinta-feira, 21 de junho de 2012

pedintes

líria porto

mais que eu
meus pobres braços
sentem falta de ti
do morno da tua pele
e pedem o agasalho
dos teus afagos

então volta para casa
não por mim –– volta por eles
meus braços vazios

*

matemático

líria porto

especialista em cálculos
tinha pedras nos rins na vesícula
e –– desconfio –– no lugar do coração
paralelepípedo

*

derrota

líria porto

o chão é xadrez
sou um dos peões
caminho pra frente
ataco de banda
defendo meu rei

o rei tem rainha
cavalos e torres
e os bispos
de ponta a ponta
dão-lhe proteção

(eu só dou cheque
sem fundo)

*

emboscada

líria porto

de costas para o sol
acompanho cada gesto da minha sombra

de frente fico cega  temo que ela se erga
e me apunhale

*


quarta-feira, 20 de junho de 2012

cabeça nas nuvens

líria porto

a nuvem balofa
uma baleia no céu
em vias de virar mar

*

carneirinhos

líria porto

as nuvens se embolam enrolam-se e rolam
caminham juntinhas como um grande rebanho
sobre o pasto infinito

*

indecisa

líria porto

cinzenta - a nuvem - não sabe se fica no alto
ou se desaba

*

vulcão

líria porto

maomé não vai à montanha
a montanha vaia maomé
:
úuuuuuuuuuuu

*

a imagem da poesia dispensa palavras

o poeta

líria porto

não escreve porque quer
nem tomou a decisão
foi condenado a si mesmo
a oscilar entre a pele
e o papel

*

a centopeia

líria porto

imelda tinha cem pés de sapatos
um sem número de chinelos e sandálias
cinquenta pares de tênis e muito
muito chulé

*

terça-feira, 19 de junho de 2012

consumismo

líria porto

dei de implicar com enfeites
penduricalhos supérfluos
:
sapatos preciso um par
roupas  três ou quatro mudas
e uma cantante

*

segunda-feira, 18 de junho de 2012

emboscada

líria porto

por um verso em branco
passei noites sem dormir
passei dias com os olhos
perdidos dentro do uísque

*

sanguessugas

líria porto

ingratos são sociopatas
sugam-te como buracos negros
dão a mínima para os teus sentimentos
e estão convencidos de que te fazem
um favor

*

sábado, 16 de junho de 2012

inconsciente

líria porto

no âmago no cerne
nas profundezas do íntimo
bem abaixo das raízes
nossos traumas violências
nossas baixezas
e vícios
:
conhecer-nos
é tatear o incerto
caminhar nos labirintos

*

sexta-feira, 15 de junho de 2012

farpas

líria porto

debaixo da unhas
a dor do sacrifício
do ofício de poetar
de cavoucar palavras
dentre os pedregulhos
:
na palma da mão
na linha da vida

*

quarta-feira, 13 de junho de 2012

subtra(i)ção

líria porto

não foste meu
mas tive a sensação
que te perdi
:
doeu

*

marquise

líria porto

a noite gela
engulo seco
aperto a gola
dou um cochilo
o galo canta
e me desperta
eu pulo fora
do meu abrigo

*

terça-feira, 12 de junho de 2012

desamor

líria porto

para ele foi mais uma
para ela a salvação
agarrou-se a uma sombra
porém sombras se desfazem
e agora vive só 

*

segunda-feira, 11 de junho de 2012

fascínio

líria porto

quando uma pedra me acha
não tenho como fugir
ela me atrai dou uns passos
finjo que não a vi
no entanto volto atrás
ponho-a na palma da mão
a pedra chega a sorrir
vem comigo para casa
para a minha coleção
de objetos sensíveis

*

faxina

líria porto

ao limpar as gavetas
achei pó de estrelas
e traças barrigudas

*

na pétala

líria porto

a poesia me toca tão leve
parece bicada de beija-flor

*

esteira

líria porto

os caminhos
tão compridos quanto árduos
engolidos velozmente pelos passos
e regados com a chuva do suor
dão prazer?
:
prefiro outra espécie de gozo

*

sexta-feira, 8 de junho de 2012

s_anta

líria porto

nas núpcias branco no enterro preto
e durante todos aqueles anos
listrada como as zebras

*

avitaminose

líria porto

careço de sol e isso tem preço
qualquer vento transforma a montanha
em farinha de osso

*

inferno

líria porto

a pedir-lhe explicações a cada gesto
a fazer-lhe acusações sem comprová-las
e sem qualquer razão
cair no choro

a insegurança é um monstro
com estatura de inseto

*

quinta-feira, 7 de junho de 2012

solto

líria porto

para se obter um pássaro à janela
quirela de arroz e um pouco d'água
:
ele vira freguês e frente à beleza
um montinho de cocô não é nada

*

quarta-feira, 6 de junho de 2012

sem holofotes

líria porto

segunda filha
contentavam-lhe as sobras
as roupas usadas o amor periférico
:
melhor ser amante
a que não cobra
nem paga

*

terça-feira, 5 de junho de 2012

simbiose

líria porto

chove e brota da terra
um cheiro que me sobe às pernas
e me lembra quando chegas
:
tu te entornas
tu me derramas

*

pão-duro

líria porto

recebe recebe – não dá não empresta
e nem tem boa vida

*

insigth

líria porto

esperei sentada para não me cansar
tomei chá de cadeira e ele não veio
:
o melhor a fazer é ir para a cama
dormir sossegada e largar de ser besta

*

descartável

líria porto

a moça rosada
sem véu sem juízo
tal qual mariposa
em torno da luz
nas tardes nas noites
no céu desses homens
que queimam seu corpo
e pagam-na com o troco
de outras vítimas

*

susto

líria porto

sonhei que morrera
e morri

corri ao espelho
tremia

fantasmas se espantam
comigo

*

domingo, 3 de junho de 2012

pro_pensão

líria porto

há os que não negam água
há os que não negam fogo

os melhores fazem os dois
e ainda servem o café

*

torcedora

líria porto

bia - a boneca - atleticana como eu
tem olhos azuis mas gostaria de tê-los
pretos

*

lua

líria porto

nua pelo espaço caminha sozinha
é o seu sangue de índia de mulher pega
no laço

*

continentes

líria porto

quando o velho manuel
deixou o mar português
e aportou no brasil
encontrou uma mocinha
ana luísa dos santos
com ela teve alguns filhos
entre eles joão - meu pai
(apelidado biloca)
que se casou com mundina
a bela filha de elias
o meu amado avô árabe
marido de vó maria
uma mulher sábia

*

sexta-feira, 1 de junho de 2012

feitor

líria porto

a chibatada do verso
se ele se quer perfeito
bate forte no poeta
vai ao cerne do seu peito

*

animação

líria porto

uns moços velhos
de cabeças prateadas
deram de querer novilhas
:
ouvi a dona dizer
o jeito é pegar frango

*

turrão

líria porto

eu não voo tu não vens somos tolos
e ninguém soube ou saberá que nus
quisemos

só o além

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

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