sexta-feira, 28 de outubro de 2011

ninho

líria porto

quero alcançar a poesia
fico na ponta dos pés
ela mais se distancia
eu não sei o que fazer
quando me canso e desisto
ei-la ali – dentro do berço
a brincar com francisquinho
meu neto de poucos meses

*

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

pé na estrada

líria porto

a casca do ovo trincou
adeus calor e conforto
agora é esticar as asinhas
e aprender a voar

*

sábado, 22 de outubro de 2011

rega

líria porto

a chuva pinga fininho
berço para as sementes
sono tranquilo pra gente
que planta feijão
e filho

*

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

relógios

líria porto

ponteiros parados dão-nos a ilusão de que o tempo não passa
as dores nos ombros nos pés nos joelhos convencem-nos
do contrário

*

palpitação

líria porto

o coração disparou
e como um cavalo bravo
a galopar em meu peito
pisoteava o amor
deixava-o num tal estado
que o pobre do amor – coitado
teve medo de morrer

(bobagem
o amor não morre
quem morre é o dono dele)

*

terça-feira, 18 de outubro de 2011

golpe

líria porto

não tenho medo da vida não tenho medo da morte
tenho medo é da ferida –– e da lâmina
e do corte

*

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

poluição

líria porto

se eu morrer de asfixia ficar roxa e coisas tais
não digam às minhas filhas que foi morte natural
a culpa é dessa gente que faz pose de inocente
e envenena o ar

*

sábado, 15 de outubro de 2011

válvula

líria porto

sou mulher de janelas variadas
e duas portas - uma de entrada
outra de fuga

*

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

domínios

líria porto

nem o corpo a sentir o estalar do chicote
nem a mão a desferir as chibatadas

*

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

palpitação

líria porto

corações não têm sossego
agitam-se como as ondas
e por qualquer vento ou brisa
quebram-se nas rochas

*

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

canal

líria porto

entre o céu e o inferno
bem no meio das pernas
a vida rebuliça-nos

*

inflamável

líria porto

o corpo arde ferve - chama-te
esta tarde vou morrer de febre
incendiar a cama as vestes
:
virar tocha humana

*

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

cândido

líria porto

eu minto tu acreditas
falo a verdade não crês

e tu não sabes por quê

*

de mal a pior

líria porto

presumo – o fumo e a bebida
fizeram do seu corpo combustão
o figado e os pulmões ficaram cinzas
há quimbas espalhadas
pelos cantos

*

terça-feira, 4 de outubro de 2011

gestação

líria porto

de bruços

(do jeito que gosto de dormir
tal como pedra no rio
ventre colado num dorso)

espero um livro

(tomara que ele me livre
desta vontade intangível
de beijar a tua boca)

belo e robusto

(folhas repletas de pétalas
gemidos sussurros chilreios cicios murmúrios arrepios
e algum silêncio)

*

xacras de ana jacinta

líria porto

morar em araxá
tomar chá
usar xale
jogar xadrez

se eu perder a chama
posso te chamar?

*

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

farnel

líria porto

sem vacilo sem titubeio
a canoa segue firme rasga a água
vai valente várzea adentro
beira a margem
deixa um rasto sem poeira
:
amor meu
chego antes da saudade
e levo um peixe

*

domingo, 2 de outubro de 2011

navegável

líria porto

debaixo da pele  nos filetes azulados
o mapa completo dos rios
dos riachos

dos caminhos que te trazem

*

sábado, 1 de outubro de 2011

herdeiro

líria porto

albino
menino mui branco
ardia nos braços de melanina
a moça de pele escura
violada pelo padrasto

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

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