terça-feira, 30 de novembro de 2010

devota

líria porto

oiá oiá
hoje é sete terça-feira
toma conta desse vento desse raio
e protege meu cafofo
tenho horror a tempestade
as paredes nada valem
vivo cercada de morro
e não sei pra onde corro

oiá oiá
agradeço o obséquio
trago a minha oferenda
um colar branco e vermelho
um saquinho de pipocas
e prometo minha mãe
a galinha carijó
chegará assim que eu possa
que eu tenha novo emprego

oiá oiá

*

inoportuna

líria porto

ora aurora
justo no meio do sonho
tu me acordas

*

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

para mama dulce

líria porto

peço-te que intercedas
junto a teu filho caçula
diz-lhe que necessito
(antes que seja tarde)
um coração vagamundo
igualzinho ao que ele guarda
a sete chaves

*

no alto da pouso alto

líria porto

a serra que eu relo
aquela
onde ralo o cotovelo
é tão bela
que o sol o vento
as estrelas
a lua
circulam à sua volta
:
por amor vim morar
          por amor fui embora

*

à espera dos pirilampos

líria porto


eu vejo um mar de janelas
e detrás de um tanto delas
olhos se acendem

será que alguém me vê
ou se põe a imaginar
que aqui tem gente?

bastava um aceno

*

domingo, 28 de novembro de 2010

pela raiz

líria porto

cortou-a
e às árvores que plantou
(ciprestes carvalhos flamboyans)
com machadadas
e ódio

fez da questão pessoal
um crime ecológico

*

sábado, 27 de novembro de 2010

restrições

líria porto

camas largas
sapatos e roupas largas
sentimentos largos
:
acabou a fartura
apertem os cintos

*

vezes

líria porto

um dois três erros
melhor arriar o pangaré e sair
à francesa

*

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

manipulação

líria porto

ria dançava cantava chorava sofria
pela vontade de quem comandava
os cordéis

*

estilhaços

líria porto

para controlar o descontrole
cercou-se de espelhos
                    de retrovisores

viu fantasmas com mil olhos

*

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

fadiga

líria porto

amanhã
vou passar a manhã em manhattan
levarei sais de banho
um casaco castanho
sonharei que eu sou magnata

amanhã
vou ganhar tanto estanho
barganhar um rebanho
bamburrar

amanhã
hoje não

*

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

lilitchika

líria porto

como maiakovski
odeio pontos vírgulas
(ainda mais reticências)
e por minha conta e risco
adjetivos advérbios
(embora vez por outra
necessite-os)

como maiakovski
eu te amo e visto
nuvens

*

coletivo

líria porto

na semente mora a floresta
eu sou também multidão

*

aposto (para nina rizzi)

líria porto
um espinho
é um espinho
:
é uma dor

*

a verdade

líria porto


tem um jeito justo
de dizer as coisas
tudo assim - na lata

de tão diminuto
um segundo basta
e não se discute

(amo-te)

*

terça-feira, 23 de novembro de 2010

alhures

líria porto

na proa - à toa
na cara a garoa
ô vida boa

à volta
        o azul

*

aedes

líria porto

vazio o coração
não o jogues em terreno baldio
:
solidão mata mais
                          que mosquito

*

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

para talheres

líria porto

comer manga às bocadas
e com a cara e as mãos caldeadas
puxar entredentes
                           a infância

*

cigarra (um poema para ayla)

líria porto


cantar dançar e mais nada
nem ao menos pensar
que há vida ou morte
:
deixar a alegria bailar
                                bailar
                                        aylar
                                             
(tristezas são formigas)

*

domingo, 21 de novembro de 2010

precisão

líria porto

colibri invade a sala
e beija flor
             de plástico

*

poeminha

líria porto

desenho de ray respall - cuba

um barquinho na enxurrada
e a poesia
                  nada

*

sábado, 20 de novembro de 2010

en_fado

líria porto

três comeram-lhe a fruta
o marido o amante o amigo
:
foram iguais em tudo

(viraram pro canto
e dormiram)

*

rascunhos

líria porto

pre_textos
letras sem lume
que roo igual unha
e cuspo nas águas
de um rio sem peixes

*

senti_nela

líria porto

meu pai (não) compareceu
ao septuagésimo terceiro aniversário
de minha mãe

à beira do corpo coberto com flores
entre filhos e velas mamãe lamentava-se
: logo hoje meu velho
                               logo hoje?

(20 de novembro de 1995)

*

enquanto

líria porto

um ciclo se fecha
o novo me anima

o nunca não existe
nem o sempre

*

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

alheio

líria porto

meu amor olhava a vaca fria
convidei-o para o pastoreio
para o meu re_banho

*

confissão de mãe

líria porto

nunca fiquei grávida
:
tu a primeira
mais bonita que flor
colhi num jardim

a outra
coitadinha
pedia pão
           não tinha rima

achei menino na rua
em porta de igreja
na praça na loja
nove ao todo
:
de um
(o preferido)
não me lembro
os pedaços
da história

meu amor
legitimou-os

*

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

acabrunhado

líria porto

não atento
ao chamamento
da poesia

fecho os olhos
cerro o cenho
feito morto

depois choro
e meu choro
é tão convulso
:
ressuscito o coração
ou corto o pulso?

*

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

desenlace

líria porto

não foi a morte que o levou de mim
foi a vida que ele levou e ao fim
aquilo nem era vida

*

longevos

líria porto

a pressa tropeça
a paciência caminha
:
de_vagar se vai

*

autoritários

líria porto

por horas e horas
pensavam no assunto
e a resposta era não

então nós fugíamos
pulávamos o muro
burlávamos
             a vigilância

*

domingo, 14 de novembro de 2010

poesia em pessoa

líria porto


coração disparado
:
na bagagem
a duração do dia

e solta os cachorros

*

sábado, 13 de novembro de 2010

a fundo

líria porto

a vida é veloz
e assim - a galope
apeia-nos

*

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

partida e/ou versos para quem sabe o quê

líria porto

não entra em dividida
porisso esta noite
(descobriu sem querer)
foi posta a escanteio

(eu_nice é nov_idade)

triste
         triste
                  triste
abandona a reserva
e pendura as chuteiras

(ah se ele lhe desse bola)

*

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

dilacerado

líria porto

um verso que-
brado vai as-
sim aos brados
de galho em g-
alho com ag-
onia e tristeza
que a aleg-
ria é vir-
tude de p-
oucos
e a poes-
ia não perd-
oa

*

só_letrar

líria porto

vovó viu a uva

vovô viu a eva
                e o vinho

*

palavrório

líria porto

foto de walter firmo

não se cansa nunca de gastar palavras
fala na janela na missa na praça – solidão
fala sozinha e acompanhada

*

reticente

líria porto

afasta de mim esse quase
desata amor
              o nó da gravata

*

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

lotação

líria porto

sardinhas
:
em óleo diesel
e molho de sovaco

*

para bom entendedor um pingo pinga

líria porto

foice
deixou-me um ex-trago

/sou eu qu'em_pena
e paga/

gota a gota
a contragosto

*

terça-feira, 9 de novembro de 2010

pelicano

líria porto

a poesia não é para o meu bico

*

para além da casa do sol

líria porto


vou a marduk passear com hilda hilst
ela de vermelho eu de preto
:
céu e inferno dá no mesmo

*

nesgas

líria porto




a casa cravada no alto da serra
janelas e portas abertas ao vento

paredes caiadas barulho de água
arrulhos sibilos orvalhos gorjeios

o verde arrepia-se no pasto nas galhas
há cheiro de mato café e pão quente

as gentes
são simples

*

pós-chuva

líria porto

nos olhos de raquel
a delícia das jabuticabas

*

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

espectros

líria porto

espelho velho  temo que reflitas
criaturas mais aflitas do que eu

*

viúva negra

líria porto

tece sua teia rede de intrigas
mata inocentes e culpados

*

resistência

líria porto


murcham-lhe as pétalas
perde o perfume porém os espinhos
permanecem e espetam-nos
::
rosa é osso duro

*

domingo, 7 de novembro de 2010

deus salve a amélia

líria porto

a neblina encobre a colina
bolina-a debaixo dos panos

(séria não é santa)

*

sábado, 6 de novembro de 2010

coletivo

líria porto


não me animo a deixar de ser anônimo
número – peixe no cardume
rebanho

valho tanto quanto uno

*

canoa

líria porto

chorar
caminhar na chuva
lavar a mágoa
a secura
:
enxurrar-nos

*

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

entre fraldas cueiros e bicos

líria porto



ele nasceu em setembro
ela nasceu em outubro

) almas gêmeas
com diferença
di_fuso (

*

real_idades

líria porto



infância - o tempo não passa
e os passos voam


velhice - o tempo voa
e os pés
        são de chumbo

*

nebulosas

líria porto

(tri)ângulos esquinas curvas e poetas
dão margem a dúvidas
                                 a perguntas
:
poucos se revelam

*

apoucar

líria porto

quem se diz enamorado
é parvo tonto
              e faz tudo errado
:
ninguém ama quem rasteja

*

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

palavras do meu avô

líria porto

para as guerras três desgraças
barras de ouro de terra
e de saia

*

esqueleto

líria porto

no tempo do amor não fiz versos
felicidade só m'inspira
quando finda

*

deve haver o céu dos cachorros

líria porto


não me fites com o teu olhar comprido
nem me olhes com este jeito teu - pidão
tu me envolves e eu fico tão perdido
não consigo sair mais de tal prisão

*

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

camaleões

líria porto

tem gente que é isto ou aquilo conforme o contexto
tem gente que se confunde com a multidão
tem gente que se afunda em si mesmo
tem gente que não é gente
                                            nem disfarçando

*

best seller

líria porto

chega de ser livro de poemas
na próxima encadernação
quero fama e romance

*

despedida

líria porto



nem muito santo
nem muito bento
um anjo torto
de patas e rodas
a voar com os olhos
atrás das borboletas

*

terça-feira, 2 de novembro de 2010

netos - os frutos mais saborosos da árvore genealógica

líria porto


todo dia uma nova descoberta
um som uma sílaba uma palavra
maria luiza cresce como abóbora
e francisco nascerá
                                em breve

*

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

silvícola

líria porto

a olhar o indiozinho aprendo
ele sabe o que é bom
pra o planeta

selvagem sou eu

*

onde há fumaça não há fôlego

(líria porto)

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

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