quarta-feira, 31 de março de 2010

deserto

líria porto

inveja é mar seco
a esconder no ventre víboras lagartos
ratos e serpentes

*

terça-feira, 30 de março de 2010

malha

líria porto

olho a lua renda branca
meia lua transparente
adolescente

é de manhã

sol suave em sua nave
lambe as beiras da cidade
o horizonte

é de manhã

bem-te-vi canta bonito
saúda o azul o infinito
o céu esplêndido

é de manhã

andorinha rasga o espaço
leva a nuvem no regaço
por um instante

é de manhã

*

lacuna

líria porto

no vão entre o colchão e o cobertor
                         espaço da tua ausência
a saudade dos arrulhos dos sussurros
do amor que existiu e voltará
numa noite assim
                         de muita chuva

*

o fotógrafo

líria porto

percebeu a magia do gesto
e num clic tocou as asas
da poesia

*

f.i.s.c.a.l

líria porto

quem confere o ferro
com ferro será conferido

tintim por tintim

*

diva

líria porto

algo de bette davis
talvez aquele olhar de mulher capaz de tudo
de matar de morrer de esmagar
                                               baratas

*

sem sono

líria porto

dorme pouco
às vezes cochila
recosta na nuvem
num colo de estrela
porém nesta noite
tão cheia de ru(s)gas
a insônia da lua
foi filha da puta

*

segunda-feira, 29 de março de 2010

atrelados

líria porto

fui ao porto ao cais
de bar em bar
perguntei ao mar à areia
a todas as ondas
precisava reencontrar-te
destrocar as nossas sombras
ao partires a minha te seguiu
e teu vulto insistente
ainda me ronda

(não consigo des_lindar-me
das lembranças)

*

longevos

líria porto

toda manhã o corpo a abraça
: bom dia minh'alma - sem ti eu não vivo

toda noite a alma beija-o
e sai para um passeio

toda tarde de mãos dadas
sempre muito unidos

sem solidão

*

domingo, 28 de março de 2010

poeminha

líria porto

as meninas dos olhos
pequeninas buliçosas
saltam do ramo de rosas
para o azul da manhã

como não temem nada
ficam dependuradas
nos raios de sol

*

de aluir o luar

líria porto

sol sono_lento
(des)acorda passarinho
brisa cheiro de lavanda

eu vou morrer
à_manhã

*

sábado, 27 de março de 2010

dom juan

líria porto

amar esse homem
é aceitar ser um pingo
num dia de chuva

o mar quando entorna
desenha n’areia
as franjas da espuma

*

feras

líria porto

pedi à princesa
um bocado de pão
deu-me saias de brocado
eu tinha fome

pedi ao rei
feijão com arroz
enxotou-me sem piedade
perdi a honra

pedi à rainha
precisava de trabalho
apontou-me o olho da rua
fiquei à margem

perdi os sonhos na boca da noite
perdi a pureza no covil dos homens

*

o ingênuo

líria porto

acredita nas verdades nas mentiras
sofre e não choraminga

: ora

*

outono

líria porto

as folhas caem
há no entanto um consolo

o vento ergue-as um pouco
e antes que toquem o chão

são borboletas

*


sexta-feira, 26 de março de 2010

medula

líria porto

rio sobre a ponte
rio sobe a ponte
rio sob a ponte
rio só

a ponte  um ponto
sem nós

*

perdi os ponteiros

líria porto

bom dia tarde
boa tarde noite

já libertei os minutos
desta mania de horas

meu relógio é o sol

(em tempo - dilua-o)

*

quinta-feira, 25 de março de 2010

álibi

líria porto

andei atrás da minha sombra
e se alguém deixou pegadas não fui eu

como fosse a sombra da sombra
eu não fazia nem sentia nada

caminhava contra o sol

*

a_versão

líria porto

nasce e renasce nos versos
nos reversos - mata-se

(nus versículos)

: in_versos versejares
m'incriminam

*

quando lúcifer queimou-me as asas

líria porto

despencou um pedaço do céu

ficou-me um rastro um vestígio
um cheirume de enxofre

uma puta cic_atriz

*

quarta-feira, 24 de março de 2010

pequenina

líria porto

acorda espreguiça-se
solta as pétalas uma a uma
como flor que desabrocha
como rosa que perfuma

*

terça-feira, 23 de março de 2010

ins_piração

líria porto

quero um verso uma luz ou uma pétala
e o que tenho é a voz rouca do escuro
o berro do silêncio
                         

*

bazófia

líria porto

vaidade é defeito dos mais rombudos
a pessoa que a detém só pensa em si e ninguém
é competente o bastante para exercer as façanhas
que para nós convenhamos são ninharia
e vanglória

*

ressentimentos

líria porto

coração moto-contínuo
movido a sangue emoção
bate/apanha acovarda-se
obriga-se a funcionar
nestas poças
             nestes charcos

*

tu_tu

líria porto

farinha sou feijão
nascemos um pro outro

*

segunda-feira, 22 de março de 2010

perfumosa

líria porto

farejo a aurora
sinto o cheiro azul
da manhã que se aproxima

*

sábado, 20 de março de 2010

solenes

líria porto

formigas carregam a barata
reverenciam o banquete
de domingo

*

robot

líria porto

entrega-se à máquina de viver
ajusta-se à engrenagem encaixa-se
ao contexto

emoção às favas coração às traças
sem dor mágoa desespero
tal como um bloco
de gelo

*

sexta-feira, 19 de março de 2010

mosaico

líria porto

sequestraram-me um poema
exigiram-me resgate
: matem-no se o quiserem
não tenho palavras
nem recurso

restam-me a_penas
f
r
a
g
m
e
n
t
o
s

*

quinta-feira, 18 de março de 2010

pecadores

líria porto

nos meandros dos quadris daquela dona
homens pousam e encontram ancoradouro
dão-lhe ouro diamantes pedras finas

(o pastor
além do dízimo
quer os favores)


*

pingente

líria porto

a palavra é pedra
a ser lapidada

a luz a penetra
a fresta se abre

da pedra tão dura
extrai-se a alma

é nova a textura
igual a da lágrima

*

quarta-feira, 17 de março de 2010

mano a mano

líria porto

achei-o cheio de si
achou-me um show de retórica
é só um ponto de vista – opinião
provisória

*

diante do espelho

líria porto

olhava-se
olho no olho
ficava sem entender
a cara a pele a boca
cabelos brancos eriçados
deus meu será que essa doida
sou eu?

*

dar de ombros

líria porto

pensem o que pensem
não importa
nem eu sei quem sou
porque vim ou voo

todos
ao pé da letra
temos calo frieira
unha encravada

o que nos consola
são meias verdades
e sapatos largos

*

terça-feira, 16 de março de 2010

a menina

líria porto

de vestidinho amarelo
com alcinhas e bolero
mais parecia uma espiga

pobre como estas rimas
estufava o peito e ria
ao ouvir o pai dizer
:
tenho uma filharada
eu sou mais rico
que o rei

(talvez fosse uma princesa)

*

no leito de morte

líria porto

olha os filhos os netos e murmura
não chorem não fiquem tristes  a mãe precisa ir
é deus que insiste

*

escoadouro

líria porto

o tempo que o tempo tem
andamos mais de três quartos
a idade disparou
eu não tinha tanta pressa
e o prazo que me resta
eu sei é pouco
então vem
antes que acabe a festa
e deixemos de viver
o que seria
e não foi

*

segunda-feira, 15 de março de 2010

ponto de vista

líria porto

uma partícula
um cisco
não teria importância
e nada mudaria
não tivesse
caído
em meu olho

*

domingo, 14 de março de 2010

ora pílulas

líria porto

uma flor contrária
uma dor de ovário
pétala uterina

sua cor vermelha
é como a centelha
dessa fêmea cíclica

muita vez transborda
passa pela borda
do próprio apetite

quando se retém
sustos vão além
duram nove meses

(a barriga grande)

*

sábado, 13 de março de 2010

protesto

líria porto

o lucro ultrapassa os limites
cortaram a paineira as flores a beleza
vão erguer o e_difícil

*

devoção

líria porto

olho minhas mãos as manchas a pele ressecada
lembro-me daquele menino  o zezé

passava os dedos pelo meu corpo e ficava admirado
és tão lisa pareces capa de revista
santa de reza

*

sexta-feira, 12 de março de 2010

como antes no quarto de a(b)rantes

líria porto

tudo para te esquecer e não consigo
:
acumulo teu cheiro no umbigo
e na pérola tua língua

(roupas
no chão
:
nós
en_laçados)

*

secretária

líria porto

depois que faz a ata
o patrão desata-a

*

quinta-feira, 11 de março de 2010

avareza

líria porto

vive-se a se pensar no ontem
a esperar-se o amanhã

quando o futuro for hoje e hoje passado
ter-se-á esgotado o tempo de viver

*

éden

líria porto

água bebida na concha das mãos
verde ao redor - vida simples
e nós

*

azul azul

líria porto

onde canta o azulão eu azulinho
teço meu ninho nos cabelos de são joão

e sonho sonhos de meninos e meninas
e faço versos com varinha de condão

*

quarta-feira, 10 de março de 2010

autonomia

líria porto

realizo se puder e do meu jeito
quem não o quiser ponha mãos à massa
:
faça

*

tudo pássara

líria porto

borboletas abanam o pátio
nem se lembram dos casulos

iguais pontas de cabelo
cortadas jogadas no lixo
assim são os sofrimentos
depois de livrar-nos deles
nunca mais pedir notícias

felicidade depende
da nossa capacidade
de mesmo sem entendê-lo
esquecer o temporal

*

caldeirão

líria porto

esta não é uma casa qualquer
a janela é virada pra lua
:
esta é a tapera
da velha bruxa
que te beija a boca
e tem entre as pernas
uma aranha rubra

arrarrarrarrarráaaaaaaaaaaaaaa

*

terça-feira, 9 de março de 2010

tédio

líria porto

sobre as listras do lençol
branca azul branca azul
dormiu sonhou mas agora
nesta monotonia
manhã vazia chuvosa
reconta-as uma
por uma
:
três trinta trezentas
e as entrelinhas

*

brinde

líria porto

quando as uvas estiverem maduras
irei ver-te e até o final da colheita
beber-te gota a gota

*

barriguda

líria porto

paineira florida
belíssima cor-de-rosa
repleta de espinhos

*

segunda-feira, 8 de março de 2010

viagem

líria porto

lá bem longe no horizonte
eu vi um nariz de prata
depois quando amanheceu
surgiu um nariz de ouro
na cara da paisagem

*

domingo, 7 de março de 2010

hoje já é a_manhã

líria porto

tal como hóstia gigante
a lua desce entre os montes
entra na goela da terra

na hora da comunhão
o sol de lá do horizonte
mostra a cabeça sem pressa

o sino bate seis vezes
bem-te-vi canta insistências
tem café com pão de queijo

*

elegância

líria porto

pois saibas
eu não ligo a mínima
vai ver tenho até homônima
pareço igualzinho a fênix
revivo recupero o ânimo
encaro como triviais
quaisquer traições

depois resolvo as pendências
(na ponta do punhal)

*

08 de março

líria porto

pela ética pela ótica
pela prole por nós
e laços
um dia é pouco
queremos os dias
as noites
e pelo mesmo trabalho
salário igual ao de todos
:
um átimo não é ótimo

*

sábado, 6 de março de 2010

preliminares

líria porto

momentos de intimidade
em que conversas e gostos
cumplicidades afetos
conduzem-nos ao ápice
à consumação de fato

*

perto do porto

líria porto

ao pôr do sol
perdeu o pertencimento
:
deixou dois órfãos
um cachorro e um par
de ósculos

*

sexta-feira, 5 de março de 2010

ariadne

líria porto

teu verso é potro indomado
a galopar pela pradaria  vez por outra
bebe água alimenta-se
segue o vento

meu verso é grilo
saltita do chão à parede
aos vasos de folhagem
não ultrapassa o compasso
do círculo
da teia de aranha

teu verso é cabo de aço
o meu  fim de linha

*

miss celânia

líria porto

nas dobras do lençol
inquietações da noite

sonhei que era
artista de novela
bela como ana paula arósio
os mesmos olhos

desejo comprimido

*

quinta-feira, 4 de março de 2010

dos picos e despenhadeiros

líria porto

cavalgar em pelo
sem restrição e sem rédeas
montanha russa teus braços
nenhum senão empecilho
despencar de um avião
desabrida correnteza
aluvião terremoto
paraíso inferno
óbito

*

escol(h)a

líria porto

a vida é algo assim
tem gente que não crê

pés de alface é manequim
pipocas vê tevê

*

passión

líria porto

para se dançar um tango
é preciso mais que luz técnica
música

faz-se necessário
sentir-se o cheiro o olhar
a pele as pernas
a sombra do parceiro
e com muita elegância
beber sua essência

*

ao homem do nariz de batata

líria porto

chuva aqui é mato
encomendo-te uma fatia de sol

*

samba no (p)é

líria porto

euro(p)eus índios africanos asiáticos
gente de todo canto gente de toda (p)arte
forma o (p)ovo brasileiro esta salada de cores
este arco-íris

*

quarta-feira, 3 de março de 2010

cruz-credo

líria porto

perco o sono
sinto medo
pisco o olho
fecho o cenho
muito escuro
tudo preto
eu campeio
pelo quarto
acho um terço
pendurado
bem no meio
do pescoço
da mula
sem cabaço

(avemariacheiadegraçaosenhoréconvoscobenditasoisen
treasmulheresbenditoéofrutodovossoventrejesussanta
mariamãededeusrogaipornóspecadoresagoraenahoragá)

*

pá_lavra enxada

líria porto

mato e morro
morro e mato
não é suicídio
nem assassinato

é mato verde
é morro alto
é viver a vida
longe do asfalto

*

tentativa

líria porto

num estalo
        tolo sem estilo
              desisto do tiro

(esta faca cega não te segará)

fumo e depois te dou
a guimba do hollywood



*

poeta de morte
valéria tarelho

[para líria porto]


matei-me
aos poucos
:
atirei rimas
a esmo
bebi do cale-se
do verso
saltei do décimo
andar do ritmo

- sem sucesso -

entre um cigarro
e um porre
a chance
que deu certo
:
ateei poemas
no corpo

*

medo

líria porto

coisas pequeninas
tornam-se gigantes
e corrosivas

o demo já foi anjo

*

segunda-feira, 1 de março de 2010

por aí

líria porto

um raio de sol
esquiva-se entre as galhas da mangueira
engraça-se pelas folhas novas
tenras cor-de-rosa

encabula-se
esconde-se
mas depois reaparece
felicíssimo aprumado
tal como homem casado
depois do serão

*

de lá do além

líria porto

aprecio um bom sono
e não repudio a morte

tenho medo é de acordar
precisar abrir os olhos

*

tensão pré-menstrual

líria porto

terremotos maremotos
a terra tem cólica
e sangra

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

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