sexta-feira, 31 de julho de 2009

a borboleta

líria porto

ao voar voar
faz tremer o céu
o mar o ar o planeta
nada fica inerte

(há um leve sopro nas letras do poeta)

*

(pretérito imperfeito)

líria porto

se eu vestisse o mar tal qual um manto
e nele me abrigasse para sempre
coberta de azul verde ou cinzento
conforme fosse um dia diferente
e ouvisses o canto da sereia
e viesses e entrasses água adentro
beberias dos meus seios

*

a_versão

líria porto

qual faca te fere
qual boca te cospe
qual rato te rói
qual chave te tranca
qual copo te bebe
qual treva te cega
qual dedo te acusa
qual cabo te aprisiona
que inimigo te persegue
:
eu odeio todos eles

*

habilidade

líria porto

penetrava-me os labirintos
como se conhecesse de cor e salteados
todos os obstáculos

*

segunda-feira, 27 de julho de 2009

préstimos

líria porto

tantas flores cobrem a serra
eis que chega a primavera
esta moça meus senhores
(o seu cheiro pleitos pétalas)
faz-me cócegas favores
quando à noite eu me deito
tenho bambos corpo
vestes

*

sedução

líria porto

a lua nem bem surgiu
estava séria arredia
um xale tão recatado
aprontou-se o astro rei
no mais belo pôr de sol
tingiu o céu de sem lei
um vermelho quase roxo
e levou consigo a lua
para a suíte de deus

*

domingo, 26 de julho de 2009

insuficiente

líria porto

estou assim passarim
a me arrastar numa asa
a outra quebrei faz tempo
naquele dia o vento
atravessou-me a carcaça
forçou-me a aterrissagem

desde então sinto-me lassa
o corpo dói se ancora
o peito se descompassa
tateio a alma escoro-me
não mais decolo não voo
perdi a graça

*

atriz

líria porto

quem me visse assim chorosa
pensaria está doendo
eu diria é fingimento
nas horas que sofro mesmo
não derramo uma lágrima
pareço igual uma rocha
com o mar batendo

*

sábado, 25 de julho de 2009

bígama

líria porto

tinha um amor
e dois homens

metade dum
metade doutro

seria assim
o amor o fim

: bilhete azul
para todos

*

excêntrico

líria porto

lá vai o poeta
olhar caudaloso

aspecto de pétala
espectro de louco

*

dormiu co'as galinhas

líria porto

nem bem o sol se escondeu
lá estava ela nos braços
de morfeu

despertou com o galo
(sabes do que falo)

'dia
cotovia

*

sexta-feira, 24 de julho de 2009

privilégio

líria porto

) na terra dos amorreus
comi pão ázimo

o levedado era dado
ao primogênito (

*

mar_asmo

líria porto

partam-me raios
: seus olhos chovem
sem que eu (tro)veja

*

tive um amor

líria porto

veio e partiu sem deixar qualquer sinal
qualquer registro que eu pudesse comprovar
que (in)existiu

*

quinta-feira, 23 de julho de 2009

pelas trompas de eustáquio

líria porto

não lhe dê ouvidos
ele é bom de bico
e seu jeito adunco
é pura fachada
(no fundo no fundo
são fossas)

e tem a mania
de chegar primeiro
de sentir o cheiro
de estar na cara
cobrir-se com sardas
de ficar vermelho
meter o bedelho
de se arrebitar

*

mala

líria porto

na bolsa ou numa sacola
enfia o que acha um saco
e joga fora

*

confusa

líria porto

assim
sem estar em mim
sem saber de mim
sem começo e fim
e sem miolo

*

explícita

líria porto

viu-me como no filme
: entranha e pele duma estranha
(en)fiada nu'a teia de aranha

*

quarta-feira, 22 de julho de 2009

inesquecível

líria porto

amor bissexto
tão distraído
levou consigo
minha alegria

a lua míngua
o sol se cobre
tudo é sombrio
tudo é inóspito

(por onde andas
luz que alumia
estou perdido
e sinto frio)

*

ioiô

líria porto

atado a sentimentos
meu coração vai e volta
igual um brinquedo

*

capitalismo

líria porto

estragada é a carne da miséria
recheada de tão duro sofrimento
as vísceras dos que dela se alimentam
apodreçam e padeçam a dor e a fúria

nas córneas desses olhos de abutres
instalem-se as pústulas e as feridas
que o céu os martirize com as trevas
co'a sentença do remorso e do infortúnio

que os ovos dessas aves de rapina
adoeçam e jamais se proliferem
dos seus crimes odiosos assassinos
as latrinas mais imundas se encarreguem

*

rompante

líria porto

no tempo dum pingo d'água
entrou saiu deixou choro
e manchas roxas

*

invólucro

líria porto

isso não a envaidece
é como se descobrisse
ser uma espécie de égua
:
(o que temos de melhor
nem os espelhos revelam)

*

passarinhos e morcegos

líria porto

a menina
asas quebradas
chupava cana

) a ciranda é na grimpa da árvore (

*

bolas argolas e círculos

líria porto

os brincos de hercília
voam como mariposas
: en_torno de luz

*

terror

líria porto

nas unhas roídas
sinal de aflição
colou as postiças
imensas esmaltadas
fez cara de alma
e entrou no avião

*

sinal

líria porto

minha pendenga
sou eu comigo
ninguém me aguenta
não corre o risco

perdi o voo
vou de carroça
a vida ruge
dá-me uma coça

vi o aviso
agora sei-o
pulou do umbigo
pingou no seio

na encruzilhada
é que decido
se eu me acabo
dou-te o recibo

*

terça-feira, 21 de julho de 2009

de gelo

líria porto

na pedra escrevi
um verso triste
de rimas pobres

a pedra chora

*

incômodos

líria porto

estrela tem ponta
rosa tem espinho
josé tem frieira
maria tem chico

*

biodiversidade

líria porto

ao se separar
o joio do trigo
algo me intriga

qual a causa
dessa briga?

*

de pombas e pavões

líria porto

eu vi a lua de frente
assim mesmo cara a cara

perguntei-lhe –  a vestimenta
não vais trocar tua bata?

ela disse  a cor de prata
é a que em mim se assenta

e seguiu sua jornada
naquela simplicidade

enquanto o sol se cobria
com um manto de brocado

a refletir sua imagem
no mar nos rios nos lagos

*

rebolo

líria porto

olhos fechados corpo encolhido
dou asas ao poeta

ele voa vara mundo vira anjo pássaro grilo
faz de tudo um pouco

volta feito doido quando acha
um verso

*

segunda-feira, 20 de julho de 2009

xanas

líria porto

lili é a dona da gata
a gata se chama donna
dona e donna em nossa cama
e o quarto vira uma zona

) odeio cheiro de gatos
confesso - eu sinto gana
prometo o assassiná-la
em menos duma semana (

*

domingo, 19 de julho de 2009

ao lui

líria porto

a ele dei meia lua
fi(n)cou-me a outra parte

num corpo só - descampado
fiamos o plenilúnio

*

sábado, 18 de julho de 2009

arabesca

líria porto

a lua é a pupila
do olho azul do infinito

desde que o mundo é mundo
ela nos vê tudo assiste
o que é feio
o que é bonito
registra tudo e repassa
para o gestor dos destinos

ele é quem faz
(in)justiça

*

fingidor

líria porto

quem destrinçar o meu verso
achar segredos nas frinchas
decerto vai perceber
minha tristeza infinita
disfarçada em ironia

rio do mar
não das pessoas

*

convés

líria porto

é dor de secar um rio
dizer adeus querido
parto por um ano

é dor de secar o oceano
dizer a quem amo
é definitivo

é dor de secar a vida
todas as partidas

todos os lenços brancos

*

à deriva

líria porto

o mar vem e volta
não se prende à areia

e há folhas secas
soltas pelo ar

carrego na alma
o peso do vazio

e faz muito frio
não poder ficar

*

opereta

líria porto

a moça cara de anjo
olhava lá da janela
o velho no seu piano

toca verso toca inverso
pedia ela com os olhos
o velho batia as teclas

o velho depois de velho
detém coração de banjo
e manias de poeta

*

muito prazer

líria porto

a amizade é um manto tecido a quatro mãos
um cobertor compartilhado

sem que se o perceba
um amigo faz um ponto o outro dá uma laçada
o amor se estende

com o passar dos anos
não importam a distância as dificuldades
não haverá inverno que os desagasalhe

*

sexta-feira, 17 de julho de 2009

descaso

líria porto

rói
dói
mói

amassa
amarrota
mas passa

*

quinta-feira, 16 de julho de 2009

surfe

líria porto

eu tinha muita vontade
de a minha alma voltar
houve um tempo tão feliz
leve corpo a acompanhava
e as nossas travessuras
eram passeio inocente

se o mar ficasse parado
quieto igual um espelho
meteria meu bedelho
cutucava-lhe a pança

quando a alegria voltasse
qual balanço de criança
eu iria numa prancha
à crista do azul

*

impaciência

líria porto

os nervos retesados do violino
reagem às tentativas do aprendiz
e desafinam

*

quarta-feira, 15 de julho de 2009

coralina

líria porto

chão a pojar milho
a espigar poesia
:
goiás velha

*

pau-de-arara

líria porto

no corte da cana-de-açúcar
o suor salgado dos boias-frias
tratados como bagaço

*

elogio

líria porto

nem muito
nem pouco

o suficiente
pra virar o jogo

*

úmida

líria porto

tons lilases
gotas de orvalho
pétalas entreabertas
:
véspera

*

borrasca

líria porto

primavera verão
ninguém detém o outono

inverno

*

terça-feira, 14 de julho de 2009

vagos

líria porto

sentei minha ausência
ao lado da tua ausência

ficamos assim

os dois sem ninguém
no banco do jardim

*

livre

líria porto

quero um cavalo baio
pra gastar na ribanceira
todo o tempo que me resta
subir e descer a galope
arriscar as minhas beiras
arranhar as minhas pernas
montada sobre um pelego
se possível branquicento
morto de medo

quero a minha pele preta
meu cabelo pixaim

*

operariado

líria porto

passarela apinhada de gente atravessa a avenida
correição de formigas por um salário
de migalhas

*

de cá da vidraça

líria porto

chove
a menina grita
:
vem ver mamãe
a árvore lava
a cabeça

*

meteoro

líria porto

bola de fogo
despencada do céu
desintegrou-se o amor
antes de tocar o solo

*

líria porto

e quanto mais
soo insólito
necessitado
dum canto

(só_lido
como pétalas
pasto-as
de_vagar)

*

segunda-feira, 13 de julho de 2009

campanhas

líria porto

questão da fome meu caro
não é prato de comida
pois quando falta a marmita
o buraco é mais embaixo

não há trabalho abrigo
salário sapato agasalho
são muitas as precisões
ratos vivem de migalhas
homens não

*

editora lê - acordes

líria porto

a manhã acorda cedo
um pouco antes de mim
toma banho passa cheiro
põe tocar uns passarinhos
melhor que isso só tu
a bicares-me o umbigo
a dizeres-me ao ouvido
minha flor gosto de ti

*

estopim

líria porto

vi-me

o vento me empurrava
pendia-me para um lado
e outro

pedi implorei
cortem o mal pela raiz
ninguém me escutou

: explodi

*

pé de grilo

líria porto

vira-lata olha a cadela
e a filha da poodle
finge não vê-lo

quem ela pensa que é
porventura cachorra tem
selo?

*

sexta-feira, 10 de julho de 2009

foi assim ó

líria porto

o sol dormia de borco
roncava igual o vovô

a lua clareava o quintal
o galo desceu do poleiro
bateu asas e cantou
cococorocóóóóóó
acorda sol preguiçoso
o sol piscou só um olho
babava no travesseiro

o galo cantou de novo
cococorocóóóóóóó
despertou os galos todos
chamou também os cachorros
cococorocóóóóóóóó
au au au au au
acorda sol vagaroso

os passarinhos o pato
firifiu firifiu quá quá quá
a galinha também veio
ajeitou no ninho o ovo
o sol remexeu-se um pouco
desprendeu um raio e outro
só depois o facho inteiro

cococorocóóóóóóóóó
firifiu au au au
quá quá quá
cocoricó cocoricó

*

predestinados

líria porto

nas teias nas brenhas nas entranhas
o mistério o destino
a sina

eu não te esperava mais
esculpiste sozinho a tua vida
e cá estamos nós – olhos nos olhos
bebendo do mesmo copo
na mesma esquina

*

d'amoníaco

líria porto

o mundo autoritário
a vida insubmissa
a missa insuportável
preciso reagir
fazer xixi na fama
dizer a eles – existo
não sou clandestino
nem otário
:
ao deixar meu traço
assumo o risco

*

belíssimos

líria porto

aurora e crepúsculo
: os filhos mestiços
da noite e do dia

*

quatrilho

líria porto

lua de assis e oliveira marte
tornaram-se amantes - muito antes de vênus aparecida
insinuar-se para sol dos santos

*

quinta-feira, 9 de julho de 2009

miró

líria porto

aquele traçado igual cicatriz
saltava do quadro e ele o sabia
talhava as cores com as dores do cio
do parto do orgasmo do útero
do púbis dos rins
do espírito

azuis amarelos vermelhos
os pretos os verdes os roxos
os peixes os galos os bichos
cavalos cachorros caprichos
nascidos no paço da infância
na forma disforme do líquido

olhos
abrolhos
abrigos
luas
estrelas
esconderijos

*

que o diabo amassou

líria porto

amor é como pão
carece ser sovado

*

in_ver_nada

líria porto

esfregávamo-nos
não saía uma chispa

disseste-me
tua frieza nos afasta

e partiste

*

a_ventura

líria porto

cada qual tem sua crença
cada um faz a sua prece

para alguns céu é firmamento
para outros – descanso eterno

para mim paraíso é aquele momento
em que morro mil vezes em teus braços

e tu ainda me pedes

*

charco

líria porto

perdi minha rima
meu remo meu rumo
então não me peçam
nem versos nem bússola
nem futuro

estou à procura
de algo que valha
uma pétala um orvalho
deparo-me com lágrimas
confusas profusas
desatinadas

*

pra que orgulho

líria porto

foice afiada
eis que chega a indesejada
: colheita inglória

)ninguém escapa(

*

quarta-feira, 8 de julho de 2009

camille

líria porto

sentada ela espera
paciência não lhe falta
passam uns e passam outros
a pedra olha-os calada
está quieta faz séculos

de repente a pedra fala
escolhi as tuas mãos
com o teu cinzel me talha
finca em mim a tua alma
:
então a pedra se arrasta
e sangra a dor de claudel

*

cantoria

líria porto

segredou-me um tico-tico
felicidade tem bico

*

premeditação

líria porto

na roda fiava
tecia tristonho
na roca amarrava
pensamento bisonho

se matam formigas
ratos e baratas
quem rói o meu sonho
eu mesmo mato

*

chuva

líria porto

o mar tece a nuvem
o sol a decanta
estende-a como um xale
nos ombros da montanha

*

terça-feira, 7 de julho de 2009

íntimo

líria porto

meu pretinho desprendeu-se do varal
calçou meias finas sapatos de salto
e dançou com meu amor
qual pé de valsa

*

esgrima

líria porto

sou não sou
essa in_certeza
esse paradoxo

protejo-me
sufoco-me
condeno-me

anjo e carrasco
sou o demo?

*

sabedoria (im)popular



***

quem pode pode
que não pode
sai de fininho
antes que o transformem
em bode expiatório

***

quem tem boca
vai ao boteco ao restaurante
ao dentista

vai a roma quem tem euros
passagem bagagem
passaporte

***

rico ri à toa

pobre tem cárie
dor de dente
riso amarelo

***

vão-se os anéis
ficam os brincos
colares pulseiras
contas bancárias
iates uísques
amantes

***

ta_manco

líria porto

qual verso escreverei e com que rima
se mágoa e dor iguais pisam por cima
se o sonho não resiste e a bailarina
quebrou o pé

*

avalanche

líria porto

puxados dentro
caímos nós sobre nós

sofrer sofremos
antes durante
e após

*

penugem

líria porto

flutuo
plano
desmaio
pouso numa flor
num galho

o vento me leva
o orvalho me pega
a água me carrega
a chuva me amassa
o sol me apruma

tenho corpo d'alma
p
l
u
m
a

*

rupturas

líria porto

rói arranha corrói
rasura o raciocínio
remove o riso
a razão

o remorso é réu

*

são bernardo

líria porto

verso de olho triste
azucrina-me

velha poesia me atrapalha

caquética
: de bengala

*

apreensão

líria porto

os degraus de gelatina
a vida sem corrimãos o pântano
o lamaçal

por tudo quanto é sagrado
canta para eu dormir – espanta
a treva

*

receita

líria porto

para o pão caseiro
sal fermento leite
pitada de açúcar
naco de manteiga
farinha de primeira
mãos e coração
a sovarem a massa
até que ela se faça
lisa como a seda

deixá-la crescer
dobrar de tamanho
igual a lua cheia
assá-la em forno brando
quase não demora
ao sentir-se cheiro
põe-se água no fogo
coa-se o café

acaso prefiras
serve pão com vinho
e agradece os deuses
a delicadeza

*

transitoriedade

líria porto

a vida
sacola furada
carrega os dias
pra lá e pra cá

a cada dia
pinga um dia
até que um dia
a vida acaba

*

*
con_de_coração
: à lua da madrugada
medalha de prata


*

segunda-feira, 6 de julho de 2009

eu tinha um amor

líria porto

eu o acordava
dizia-lhe bom dia amor
ai loviú tem café com leite
geleia pão de queijo
requeijão torradas

todo santo dia
preparava-lhe a marmita
arroz feijão carne salada ovo frito
levava-a ao forno
acaso ele chegasse tarde

eu tinha um amor
mas ontem terminamos
por motivo grave
cismei que ele amava
ava gardner

*

corredeira

líria porto

como conter o cio
se és igual o rio e em mim
deságuas?

*

grávido

líria porto

o poeta sente dor
cólica
pressão alta dentro e fora
e só tem alívio
quando o verso eclode
e qual meteoro
irrompe a barreira
do indizível

*

domingo, 5 de julho de 2009

do lado esquerdo

líria porto

a dona que dorme
feliz a teu lado
e traz no regaço
o segredo das pérolas
cuidado co’a joia
encosta a janela
o vento é moleque
e pode roubá-la
jogá-la no brejo

(o príncipe coaxa
prefere os insetos)

*

vadia

líria porto

nenhuma estrela a aponte
nem a queira condenar
dorme debaixo da ponte
vaga o lume no horizonte
na beirada do aluar-se

*

morro

líria porto

a lua despenca
bate a cabeça na pedra

o galo canta

*

certeiro

líria porto

com um tiro calou a balada
ressuscitou o silêncio

*

fuzuê

líria porto

passarinho canta agudo
repete-se desesperado
tem medo de ficar cego
tem medo de ficar mudo
tem medo que o sol se apague
que venham granizo e chuva
que a morte chegue
à solapa

*

tatuado

líria porto

o corpo
ideia fixa
vai bem

as ideias
mama mia
não passam
na academia

*

sábado, 4 de julho de 2009

relatividade

líria porto

a esquina
o sinal vermelho
os carros o vento
o bailado das folhas
a moça de cabelos soltos
e sua saia godê

(parada
em movimento)

*

imposição

líria porto

morria de medo da morte
resolvi matar a morte
sangrei a morte de morte
um punhal fino e cruento
e a morte não morreu

condenei a morte à forca
e a corda que eu usava
com toda a força que tinha
enrolou-se-me ao pescoço
fui eu que quase morri

ofereci-lhe veneno
um copo cheio de morte
a morte bebeu a morte
e a morte não morreu
brincava a morte com o gelo

(existe a lei do mais forte
e mais medo que da morte
tenho medo desta lei)

*

ir_racional

líria porto

o toureiro
corpo franzino
leva o touro
corpanzil
de um lado para outro
com um manto
e sangue frio

*

alucinado

líria porto

fizera um só poema
e depois igual ourives
aprendiz de joalheiro
começou a dar-lhe brilho
buscar-lhe forma
beleza

poliu as beiras excessos
sujeitos desnecessários
predicados objetos
adjuntos advérbios
pontuações citações
e o papel branco  um brinco
virou um floco de neve

então riu
deixou-o ao sol

*

sexta-feira, 3 de julho de 2009

tarja preta

líria porto

rejeito antidepressivos ansiolíticos
tranquilizantes

nada é tão triste quanto o olhar deserto
ou um ri(s)o seco

*

quede a orelha de vincent?

líria porto

a barba ruiva
os velhos sapatos
os campos de trigo os camponeses
os girassóis o céu as estrelas
mil sóis

barcos ao mar
o café o terraço o chapéu
o cachimbo os corvos os ciprestes
o quarto a janela a toalha a navalha
a loucura

) o estampido (

*

quem sabe?

líria porto

a morte pode à tocaia
chegar de surpresa

viver é risco n'água

*

madonna

líria porto

nove filhos seguidinhos  um após outro
levam-me a pensar na animação das noites
o pai sanguíneo ardoroso a mãe pálida quieta
submetida a seu gozo

a morder os lábios
pra não fazer barulho

*

quinta-feira, 2 de julho de 2009

primária

líria porto

não tive prazo pra prosa
embora preze o estilo

à promotoria
ao praça à prima
ao professor ao prior
apresento-lhes a rima

apronto tudo no prumo
sem pressa
               e no capricho

*

roldão

líria porto

enquanto a morte não vem
eu me distraio divirto-me
e ponho a vida girar
na ponta da sapatilha
e faço gato e sapato
desta saudade cachorra
desta tristeza que gruda
na barra da minha roupa

*

fino calibre

líria porto

a rima arretada
sem volta ou floreio
busca a direção
do peito

o verso direto
sem curva ou rebusco
tem a precisão
do furo

*

labirinto

líria porto

direita centro esquerda
deu muitas guinadas

sempre um soco
na cara

*

insigth

líria porto

cansada de malhar em ferro frio
eu te amo eu te amo eu te amo
num estalo - c'est fini

desa(r)mo-te

*

quarta-feira, 1 de julho de 2009

rush

líria porto

roncos rumores
tripas congestionadas
e nada sai do lugar

*

difamação

líria porto

despiu-se da alma dos véus e da pele
ficou carne-viva exposta aos abutres

comeram-lhe os olhos os rins as amígdalas
arrancaram-lhe as tripas as unhas o fígado

na hora do útero reagiu – aqui não
essa é a pátria dos meus filhos

*

pudoroso

líria porto

minha senhor sou malvista
deitei-me em muitas alcovas
a velha pele curtida
em vinho sêmen e almíscar
vai macular vossa colcha

*

consolação

líria porto

sonhei por nós dois
amei por nós dois
chorei por nós dois
pelos dois eu sofri
agora é a tua vez
sê feliz por nós dois
não tenho forças

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

Arquivo do blog