quinta-feira, 30 de abril de 2009

rachaduras

líria porto

dos pingos da chuva
ouvia os chiados
tais quais os enxurros
riachos da alma

achou entre os seixos
um nicho de mágoa
prendeu as madeixas
os cachos da lágrima

chorou só um pouco
baixinho sem garças
tristezas são brumas
são minas sem mar

*

à amiga rina bogliolo

líria porto

estejas onde estiveres
ao contemplares a lua
(dela não arredo os olhos)
poderei ver-te

dir-me-ás
          é pouco

dir-te-ei
          nem tanto
          aos loucos
          basta-nos uma gota
          e o mar virá

*

ribeirinha

líria porto

comecei na lida cedo
ajudo a mãe no de comer

faço panelas
:
tiro o barro bato amasso moldo queimo
tudo assim
                   na dificuldade

igual canoa no rio
não sou de deixar rastilho
estou de passagem

tenho pele de escama
cheiro de peixe

*


*

homem

líria porto

quando eu voltar
vou sangrar o açude
matar tua sede
e a minha

*

desbunde

líria porto

olha-se ao espelho
requebra-se de lado
e o velho diabo
redunda abundância

(pra que dividir
pra que repartir
se a bunda já veio
partida ao meio?)

o espelho advoga-a
dá seu veredicto
minha senhora
o que abunda
não atrapalha

tire sua saia
e cinta

*

quarta-feira, 29 de abril de 2009

matrioskas

líria porto

as bisavós das avós
a mãe da mãe depois nós
as filhas netas bisnetas
as crias destas daquelas
e assim uma após outra
pelos séculos dos séculos

*

a_deuses

líria porto

estas mãos encarquilhadas anciãs antes do tempo
há muito já me contavam da importância dos gestos
da finitude do homem de como todas as coisas
são ilusões do momento

*

terça-feira, 28 de abril de 2009

por quê?

líria porto

tu girassol
         eu giralua
um sem o outro
e a vida dura
tão pouco

*

branca

líria porto

lua
pressinto-te

és a moça
que rebusca a noite
com um facho
de lanterna

*

apito

líria porto

gosto do trem quando vai
gosto do trem quando vem

e tu vovó
                do que gostas?

da manobra meu bem
da manobra

*

piquenique

líria porto

catar guabiroba
no meio do mato
frutinha gostosa
de lá do cerrado

a saia de flor
o laço o sorriso
menina danada
sem véu sem juízo

igual borboleta
voar por um triz
a tarde tem asas
tem cor tem matiz

*

(ir)revogável

líria porto

parte - eu fico
estaremos separados
até que a morte nos junte

*

segunda-feira, 27 de abril de 2009

cicios

líria porto

cinco freirinhas
hábitos brancos
um só marido
rezam u'a prece

jesus querido
a lua cresce
perdão há fogo
dentro das pregas

passa uma nuvem
aguinha fresca
vê-se fumaça
perto das pernas

oh virgem santa
que coisa boa
deus abençoe
chover à toa

*

mudez

líria porto

manancial de azul
deserto de palavras e a alma
nesta secura

*

agudo

líria porto

passarinho
teu assobio
bica-me o ouvido
sinto um frio fino

arre_pio

*

o diabo e a cruz

líria porto

o olhar - ponte pênsil
foi incapaz de (re)aproximá-los

) desconfiança - estigma
de gato escaldado (

*

ligação

líria porto

a vida é o hífen entre duas noites
a que antecede o nascimento
a que sucede a morte

*

sábado, 25 de abril de 2009

constelação

líria porto

berenice II rainha do egipto
prometeu sua cabeleira a afrodite
se ptolomeu III seu marido
voltasse da guerra são
e salvo

as tranças da soberana encantaram a deusa
que as levou para o céu e as converteu
em estrelas

*

o garçom e a lua

líria porto

ele traz na bandeja
a cerveja e dois copos

estou só - bebes comigo?
:
perdão eu não posso
preciso estar sóbrio
ao servir
            as estrelas

*

boca da noite

líria porto

depois de beijá-la o sol decretou
a lua é frígida  e condenou-a
à solidão das virgens
:
o sol é estrela
de quinta grandeza

*

phoderosa

líria porto

a lua surge rainha
põe-se no meio do céu

o sol não suportaria
essa mulher sem cabresto

que vem e volta sozinha
sem precisar de pretexto

*

inconstante

líria porto

eu vi a lua amuada esquecida lá no céu
linda lua a minha lua embrulhada numa nuvem
apareceu e sumiu – deixou-me aqui preocupada

depois voltou tão bonita
sorridente olhar sem névoa
a minha lua é de lua
charme de mulher bela
às vezes sofre e se entrega
às vezes me manipula

*

tendências

líria porto

vovó zinha
quase sete décadas
pintou as unhas de azul
:
céu e mar nas
              extremidades

*

profissionais

líria porto

tias solteironas costuravam calças masculinas
arrematavam presilhas bolsos bainhas pregavam botões
abriam / fechavam braguilhas 
e fantasias

*

sexta-feira, 24 de abril de 2009

sussurros

líria porto

nossa
olha a lua na poça
posso tocá-la?

cala-te
se acordas são jorge
ele foge a cavalo
leva a lua

e o fosso?

vou cavá-lo depois
não agora
que a lua mergulha
em meu olho

*

paixão

líria porto

um cão vadio
disse ao girassol
vem comigo
vou levar-te ao polo norte
onde o sol brilha
seis meses consecutivos

pobre flor
morreu de overdose

*

defloração

líria porto

a terra molhada
exala um perfume
tão próprio das fêmeas
um cheiro de coito
e dentro em pouco
estará inundada
de verdes de brotos
de intumescências

*

minguante

líria porto

lua
o rato roeu
sua cara de hóstia

caíram uns farelos
que gato lambeu
com os olhos

cão pobre vadio
uivou no vazio
tristeza de morte

a vida é o quê
senão o aguardo
da hora

*

avô

líria porto

quando vem a brisa toca-me de leve
e o amor desliza pela minha pele
a paz é tão grande tem bigodes brancos
chega no sorriso de um homem brando
eu não sei se sonho ou se imagino
volto a ser menina boca de morango
pés de bailarina olhos de avelã

suas mãos macias roçam-me os cabelos
levam-me à trilha do gostar ameno
surgem as lembranças lá de outras terras
onde as oliveiras entre as coisas belas
compõem nosso berço

*

à francesa

líria porto

arrumou amá-la
depois desistiu

munique é fria
e ele não tem
sobretudo

*

la luna llena

líria porto

peguei a lua no pulo
um lobo lambia-lhe o leite
havia elo entre eles
o halo dela luzia
ela feliz – aos lampejos

loucura de lua
lascívia

*

pré-menstrual

líria porto

barulho de chuva
arrulho de água e serra

mato seco se enverdece
primavera insinua-se

e a lua surta
no cais

*

quinta-feira, 23 de abril de 2009

mania

líria porto

sem ponto nem reticência
d'estilo letras minúsculas

*

(des)crença

líria porto

atiraste longe o sonho
ele vagou alheio
pendurou-se em galho seco
mas depois a chuva veio

brotaram folhas e flores
alma é terreno fértil

*

desalento

líria porto

mãos espalmadas no rosto
cotovelos na janela
olhos de cais do porto
a mulher sempre à espera
afunda a barca dos sonhos
e naufraga dentro dela

*

quarta-feira, 22 de abril de 2009

(des)arrumação

líria porto

na gaveta nenhuma novidade
até encontrarmos no compartimento dos garfos
algumas conchas grávidas

*

delirius

líria porto

giácomo jacobina é o meu amado é o meu amante
escreve em papiros papéis pardos pergaminhos
poemas mensagens cartas de amor bilhetes
dorme em meu sono sonhamos rimo-nos
fala-me ao ouvido palavras etéreas

quando eu me enviúvo choro sofro
chamo-o de volta ele reencarna
dão-lhe outro nome - morro
reecontro-o reconheço-o
e tudo se desencadeia
e tudo se encaixa

por séculos
e séculos

*

terça-feira, 21 de abril de 2009

crítica

líria porto

o amor saiu de cena
encerrou o espetáculo
fechou as cortinas

ninguém lhe pediu autógrafo
não houve aplauso
nem flor

*

alojamento

líria porto

vou beber da lua cheia
(cachaça de minas)
e quando me embriagar
vou dormir na tua rede
ou na cama do bordel
sinto frio sinto medo
quero colo aconchego
e cafuné

*

temperamental

líria porto

eu te necessito com a força da explosão
das avalanches e das corredeiras
porém se não me queres
a vida te seja breve

vai pro inferno

*

camuflagem

líria porto

entre quatro paredes
teias cama rede
minha flor meu amor
pernas pele
desejo
carícias
confidências

lá fora
bom dia boa tarde
meu senhor minha senhora
estão todos bem
sim obrigada
vou-me até logo
lembrança aos parentes

*

leve

líria porto

flutuo plano desmaio
pouso numa flor
num galho
:
o vento me leva
o orvalho me prende
tenho corpo d'alma

                             p
                           l
                             u
                               m
                              a

*

outonais

líria porto

despem-se as árvores
a tarde pinta-se de batom
veste-se de festa

os dias desmaiam
em meus olhos

*

segunda-feira, 20 de abril de 2009

autoestima

líria porto

gostar de mim é do jeito que voo
polegadas a mais pesares a menos
e no extremo do gozo

*

caminho

líria porto

longo ou curto
estreito ou largo
reto ou sinuoso
a vida é o atalho
entre o berço
e o fosso

*

domingo, 19 de abril de 2009

cometi um soneto

líria porto

pedi socorro a hipotenusas e catetos
falei comigo e também com os meus botões
amasso versos sou assim aos borbotões
porém insisto em processar alguns sonetos

conversa vai conversa vem eu vou tentar
busco o luar a luz do sol amarro-os bem
ou largo tudo num papel em qualquer trem
trago co'as mãos as ilusões lá de além-mar

batuco os dedos a contar sílabas tortas
e veja só velho camões se não te importas
sempre fui doida e fico mais tenho certeza

falo sozinha a cavoucar rimas avessas
sou assassina criminosa ré confessa
deste soneto atordoada eu me fiz presa

*

ao pé da serra

líria porto

nas tardes molengas
pão de queijo café
mingau e pamonha
coalhada broa de fubá
milho assado cozido
biscoito de polvilho
um dedo de prosa
u'a moça formosa
um beijo
um chamego

nas noites de lua
seresta cachaça
caipirinha torresmo
cerveja gelada
farofa linguiça
tutu à mineira
um causo animado
um pito um violão
um fogão de rabo
um amor fagueiro

*

sotaque

líria porto

em nossa boca
a saliva doutra pátria

*

espelho

líria porto

sonhei sonhar e o sonho
tanto quanto o pesadelo
não disfarçava a idade

não se vive impunemente
ficamos todos velhos

*

vida privada

líria porto

todo sujeito é sagrado
abomino aparelhos
que o invadam

*

sábado, 18 de abril de 2009

arritmia

líria porto

manhãs loiras tardes ruivas
noites morenas  o sol endoidece e a lua
rói as unhas

*

cegueira

líria porto

sem lentes microscópios
as linhas se embaraçam
as bordas se desfazem

desacordo míope
sem saber do sonho
o que é realidade

*

boca limpa

líria porto

pimenta malagueta era tiro e queda
contra palavrões

(proparoxítonas
sentimentalismos
inconstitucionalidades)

*

sexta-feira, 17 de abril de 2009

olho nu

líria porto

o vento cavalga a nuvem
leva a lua na garupa

sabe-se lá para onde

*

viseira

líria porto

certezas são vigas
vagas dúvidas
ondas contra a pedra

mu(r)ros

*

escorregadio

líria porto

dúvidas são certezas líquidas
certezas são dúvidas sólidas?

*

quinta-feira, 16 de abril de 2009

solidão

líria porto

dentro dum grão de areia
o deserto

*

casal

líria porto

ele magrinho
ela encorpada

xícara bate asa
pires fica triste

*

bodas de osso

líria porto

mentiras não houve
apenas silêncios omissão de fatos
ausências
                     insônias

para dourar a pílula
mudavam as vírgulas
de comum acordo

durou uma vida

vida?

*

conforto

líria porto

qualquer lugar me acomoda
uma choupana um casebre
uma tenda um barracão
não me atrapalham as paredes
se são palha barro ou lona
:
sou lírio do pântano

*

nebuloso

líria porto

se convexo
ele me côncava
e me prende
como concha

*

resignação

líria porto

existe na vizinhança
um passarinho cantor
vive preso na gaiola
e jamais se quebrantou

por um punhado de alpiste
um bocado de água fresca
canta afinado bonito
a louvar a natureza

*

quarta-feira, 15 de abril de 2009

passional

líria porto

odeia adora
não há meio termo
é no extremo do (res)sentimento

vermelho no branco
do olho

*

apelido

líria porto

pulava e ria ao passar na pinguela
cuidado menino dizia-lhe a mãe

se cair eu nado se cair eu nado
se cair eu - ploft
:
pinto molhado

*

terça-feira, 14 de abril de 2009

a_balada

líria porto

cansada da fama da casa da cama da gata
madama alcança a sacada balança a carcaça
gargalha

s
a
l
t
a

atrapalha a manhã da babá

*

segunda-feira, 13 de abril de 2009

corações tímidos

líria porto

olhavas as flores
as flores me olhavam
:
silêncios perfumam
jardins

*

compulsório

líria porto

sem data de vencimento
o prazo pode ser grande
ou pequeno

(assunto proibido - para acontecer
basta-nos estar v i v o s)

fingir não resolve
tirana é quem cobra
a apólice

(quem de nós será
o próximo?)

*

domingo, 12 de abril de 2009

bem-querer

líria porto

abril-me o azul
o céu de anil
é meu é mel
seu meu
anelo

*

o poema

líria porto

não se desprende da ponta dos dedos
fica debaixo da unha tal como farpa
ou sujeira

*

o verso

líria porto

este chicote
este lanho nas costas
esta cicatriz em cruz

*

penúria

líria porto

das minhas tantas manias
das quantas várias proezas
dalgumas eu nem me lembro

muita vez imploro à chuva
disfarça tua amargura
e chora sem estridência

(poesia
é ideia
fixa)

*

sábado, 11 de abril de 2009

reme reme

líria porto

o momento congelado
preso na fotografia
um flagrante do passado
como a carta que te envio
quando a lês estou mudado
e a tristeza que havia
poderá não existir

o tempo é rio

*

enigma

líria porto

se eu me chamasse dolores
esquecesse minhas dores
vestisse todas as cores
tivesse muitos amores
nem que fosse pra rimar
a vida seria mais doce
(fosse o que fosse)
ou amarga?

*

valores

líria porto

lagarta vira borboleta
gente não
troca cores asas voos
por paredes
arrasta casa e solidão
como os caracóis

*

e tenho dito

líria porto

proibo-te de me proibires
eu fiz tu fizeste
nós dois faremos sempre
:
são tão minhas quanto tuas
as (in)consequências

*

re_baião

líria porto

não vê a hora de chegar ao paraíso
de ouvir são pedro carimbar os passaportes
: esse pode esse pode esse pode

(inutilmente reza por nós
o_velhas desgarradas)

*

sexta-feira, 10 de abril de 2009

sábado

líria porto

é dia de comer a aurora
beber-lhe o sangue até ficar azul
beijar o sol na boca  sujar-lhe o colarinho
de batom

*

quinta-feira, 9 de abril de 2009

choro

líria porto

eu não tenho mar não tenho ri(s)o
e não tenho lago riacho cisterna chuva enxurrada
poça ou copo d'água

eu só tenho pó e esse jeito de ser
tão

*

sangre

líria porto

num dia de domingo ao som de um belo tango
nasceu uma menina boca de morango

cabelos purpurina olhos de quebranto
chamava-se marina e usava um manto

morava numa esquina telhado de amianto
cresceu muito sozinha casou-se com um santo

foi tão infeliz ninguém sabe o quanto
e de tanto tanto e de espanto e sangue

mandou-o sem pesar
                         pros quintos do inferno

*

lealdade

líria porto

por ti eu faço
seguro a onda no braço
e se o mar te der rasteira
amarro-o numa coleira
arrasto-o para as areias
do deserto de saara

*

solidão

líria porto

vasta palavra cercada de silêncios

*

quarta-feira, 8 de abril de 2009

íntimo

líria porto

em seu regaço eu me aninho
e escorro e escorrego sento juntinho dos pés
igual água da bica quando cai na bacia

*

(b)isca

líria porto

uma bolha uma folha uma rolha uma escolha
uma tola uma tonta uma sonsa
que inventa intenta imagina improvisa
para chamar-te à tensão

(à tentação)

*

morta

líria porto

a alma enclausurada
fechada dentro da dor
às vezes tudo se acaba
sem precisar sepultura

*

terça-feira, 7 de abril de 2009

costume

líria porto

amar amou não foi pouco
deixou de amar - tudo bem

se separar foi alívio
por que o ciúme?

*

reação alérgica

líria porto

de fora para dentro
a imensidão o universo

de dentro para fora
a aflição o medo

no ponto de fusão - na pele
a erupção

*

segunda-feira, 6 de abril de 2009

indícios

líria porto

quem pensa que nos conhece sabe tão raso tão pouco
se mais amar-nos soubesse encontraria o tesouro

*

caminhante

líria porto

não sei se sei se aprendi
se fico se vou-me embora
sem ver entrei nesta vida
restou-me a estrada

retorno?

*

domingo, 5 de abril de 2009

comparação

líria porto

peito amarelo
o corpo cinza
sacode as asas
reabre o bico
sobe nas galhas
canta assobia
ai quem me dera
ser passarinho
eu tenho pe(r)nas
tão doloridas

*

de amante

líria porto

pelas montanhas eu surfo
pelas campinas eu nado
pelo horizonte eu surto
pelas minas eu me afundo
pelas gerais eu me acabo

*

sábado, 4 de abril de 2009

maiores que a lua

líria porto

tristezas me assolam – bolas de neve
e em breve estarão no livro
dos records

*

sexta-feira, 3 de abril de 2009

bolso furado

líria porto

a vida é (ul)traje
sob medida

o tempo passa
faz-se o remendo

vai-se vivendo

*

diferenças

liria porto


dizes que minto
ao pintar folhas
de roxo


questão de gosto


*

incréu

líria porto

não acredito em nádegas
nessa existência sem nexo
como esfinges e macarronadas

*

versos d'inverno

líria porto

o sol travestido
vestido de lua de lua
e o frio o frio
senti-o na nuca
na nuca

eu velha velha
velha
tremia tremia tremia

sol filho da gruta

*

pétalas perdidas

líria porto

versos vazam-me as veias
como vampiros

*

ralo

líria porto

outra arrancou fio a fio
os pelos do teu bigode
aquele colchão macio
onde deitava meus beijos
e sentia cócegas

*

destilados

líria porto

lua cheia de cachaça
bêbada de ti mesma
vais deixar o sol borracho
e desviar o seu facho
de paris para veneza

garçom
dá-me outro trago
com limão e gelo

*

quinta-feira, 2 de abril de 2009

chove e tudo me comove

líria porto

o choro da nuvem
a chuva em teus olhos
alguém me ajude
não suporto
tanto


l
ú
c
i
d
o

*

quarta-feira, 1 de abril de 2009

perigo

líria porto

um grito perfura meu tímpano
e aflito eu me escondo em caixa
de marimbondo

*

fortuna

líria porto

janela abelhuda só vê vizinhança
a minha contempla o crepúsculo

*

ao senhor das alturas

líria porto

em verdade vos digo
pobre daquele
que só tem
c
o
u
r
o

*

tortura

líria porto

quem bate esquece
quem apanha sente as pancadas
pelo resto das vítimas

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

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