terça-feira, 29 de julho de 2008

despeito

líria porto

pavão tem pé feio
dizia o invejoso
enquanto a ave
abria a plumagem
e exibia sua cauda
impecável

e tu
és perfeito?

*

mineira

líria porto

nasceu no triângulo
e a instável figura
impôs-lhe uns espantos

de terras tão planas
um vento aprumado
jogou-a às montanhas

sentiu na viagem
de sonhos loucuras
vertigens desmaios

perdidas instâncias
cavalga sem rédeas
nas próprias palavras

*

segunda-feira, 28 de julho de 2008

estéril

líria porto

falar tão calado
silêncio gritante

e o amor desarmado
desanimado agonizante

*

domingo, 27 de julho de 2008

tonta

líria porto

no labirinto
nenhum equilíbrio
só ruídos barulhos
silêncios murmurados
por descuido

*

sábado, 26 de julho de 2008

a um bravo

líria porto

ao balançar suas lâminas
a persiana me lembra
o barulho das orelhas
dum cachorrinho branco

morreu faz algum tempo
mas su'alma me visita
ele era meu amigo
mais do que muita gente

sinto saudades do tiu
seu focinho cor-de-rosa
a roçar a minha porta
minha alegria

*

quinta-feira, 24 de julho de 2008

agenda

líria porto

domingo ia à missa
segunda rezava o terço

na quinta
maria das quantas
limpava o quarto
e punha o lixo
na cesta

no sábado
(aleluia)
vinha um soldado
tirar-lhe as teias
da aranha

(nu
      tempo
             restante)

*

quarta-feira, 23 de julho de 2008

tentação

líria porto

eu ouço um rugido
e vem da cidade

a fera noturna
acende mil olhos
estende os tentáculos
aperta o boêmio
em seus braços

*

se conselho fosse bom

líria porto

precisas mudar daqui
esta casa é muito grande

: também sou
não vou me mudar de mim

*

segunda-feira, 21 de julho de 2008

idas e vindas

líria porto

o nosso caminho
de espinhos e pétalas
bifurca-se

adeus ó amado
não vou te esquecer

um dia quem sabe
os braços do rio
misturem nossas águas

*

sábado, 19 de julho de 2008

certezas

líria porto

sem sombra de nuvem
azul absoluto

sem sombra de dúvida
nem o mandrake

*

sexta-feira, 18 de julho de 2008

anúncio

líria porto

vivo comigo faz décadas
durmo e também desperto
almoço janto e me banho
penteio-me enxergo-me
completo-me
quem quiser morar aqui
por certo terá problemas

porém se permanecer
saberá dos sabiás
das andorinhas gorjeios
dos sóis das luas estrelas
das janelas sem tramela
dos temperos arrepios
e dos desmaios no leito

*

conciso

líria porto

tão direto
que encurvado
arreta-se

*

balançam haicais

líria porto

noite de luar
as flores da laranjeira
grinalda de pétalas

*

barcos de papel
sobre as águas da piscina
arrepiam-lhe a pele

*

avião no espaço
urubu gira faminto
procura carniça

*

ratos e morcegos
entre as sombras do quintal
pela noite adentro

*

dia ensolarado
sabiás catam gravetos
nos jardins da praça

*

restos na lixeira
em caixas de papelão
cascas de bananas

*

varal

líria porto

quando chega a madrugada
e a manhã não veio ainda
o sol que maneja as cores
põe a noite no estaleiro

entre o azul e os olhos
tudo pode acontecer

*

ressentimento

líria porto

tua raiva agarra-se à garganta

a minha
entre a língua e os dentes
mistura-se à saliva

cuspo-a na pia

*

descanso

líria porto

a vida como onda
sempre em movimento
atravessa o tempo

acalma-se na praia
éter namorada

*

quinta-feira, 17 de julho de 2008

versinhos tirânicos

líria porto

levo relevo
carrego pra todo canto
dou de mamar acalento
mas quando morde meu peito
saio de mim

*

pote de ouro

líria porto

a amizade é bonita
parece água de bica
nela se bebe à vontade
lava-se mágoa
tristeza

se acaso faz tempestade
e a água se embacia
o mau tempo logo passa
e jorra límpido
o riso

onde mora a amizade
nasce o arco-íris

*

quarta-feira, 16 de julho de 2008

onde estão as chaves?

líria porto

eu nunca vou te esquecer

(não sei quem sabe
e se eu tiver alzheimer)

*

segunda-feira, 14 de julho de 2008

análise

líria porto

cavoucar profundo lá no âmago
revirar nossos monstros e conceitos
é revelar-nos o que temos nos porões
é refazermos a imagem do espelho

*

o bordado

líria porto

um pano branco
a ponta da agulha
as linhas de cor
as borboletas

ponto
após
ponto

*

foi-se

líria porto

morre um dia morre outro
morre um e morre o outro
e mais dia menos dia
sou o novo morto

amanhã pode ser tarde
ontem era hoje

*

alguém

líria porto

um grão de areia
igual a todos os outros
nem melhor e nem pior

suficiente

*

invisível

líria porto

nem a grande nem a pequena - a do meio
a que não manda nem obedece
aquela de quem se lembra
vagamente

*

intrincado

líria porto

sem respostas às perguntas
sem remédio para os males

valerá estar num mundo
de penas e de pesares?

*

rompante

líria porto

emoções acumulam-se
represam-se as atitudes
um dia o dique rebenta
quem segurava não aguenta
põe a perder quase tudo

*

indiferentes

líria porto

tal como eu me atirava em teus braços
o mar se joga sobre os rochedos

iguais a ti
as pedras permanecem impassíveis

*

passo atrás

líria porto

a minha cara de lua
a tua cara-metade
ficamos lá cara a cara

eu te olhava de frente
tu me olhavas de lado
cara ou coroa pergunto-te

tu não respondes
acovarda-te

*

sem pressa

líria porto

névoas rugas nuvens
cãibras dores ferrugem
mesmo assim a velhice é breve
e a vida - um luxo

*

domingo, 13 de julho de 2008

abracadabra

líria porto

escrevo
afio a pena

um dia quem sabe
num rasgo relâmpago
raio ou milagre
eu encontre
a mágica

*

trapézio

líria porto

o coração pede
o corpo permite

viver é salto sem rede
arrisco-me

*

quinta-feira, 10 de julho de 2008

agonia

líria porto

tem um poema calado
a desprender-se do lado
onde o grito se afigura

um poema de silêncio
sem palavras e sem fala
entranhado de estranhezas

sua cor a cor do sangue
seu teor o horror à guerra
a maldição do mundo

*

de passagem

líria porto

lua rola bole olha-me
cola-se em minha janela
brinca brilha mostra-se beija-me
gosta cora encolhe-se peço-lhe
fica um pouco mais
espera-me

lua míngua
vai-se embora

*
confiança
é dormir igual criança
na cama de outrem

quarta-feira, 9 de julho de 2008

deserto

líria porto

palavras me exaurem
quando penso morrer à míngua
brotam-me versos como margaridas

depois da chuva
mares de areia
viram jardim

*

prece

líria porto

ó deus
acaso existas
antes faço uma troca não um pedido
se a dor destinar-se a meu filho
seja-a a mim – e ao triplo

(nenhuma fêmea suporta
o sofrimento da cria)

*

domingo, 6 de julho de 2008

recuerdos

líria porto

os nossos braços cansados
já não apontam estrelas

quem as tem cravadas n'alma
em sonho é capaz de vê-las

tais como uma lanterna
a clarear as lembranças

dos tempos bons da infância
quando a gente tinha medo

de ter verruga no dedo

*

pensamento

líria porto

havana lisboa londres madri
santiago beirute viena bagdá
istambul tóquio roma paris
moscou méxico nova york
são paulo toronto luxemburgo
cabul brasília pequim pretória
jerusalém damasco luanda jacarta
sófia buenos aires

em pouco mais de um minuto
revirou mundos e fundos
sem sair do lugar

*

d'amoníaco

líria porto

à noite brincava com fogo
em sua cama entranhava-se
o cheiro fatídico

*

psicodélicas

líria porto

confusas difusas intrusas
as musas são um barato
e são caras

*

dona doida

líria porto

abrir os braços
beirar o horizonte
rodear a montanha
ir à espanha colher flores vermelhas
levá-las para maria seixas
em portugal

sonhar fingir-nos mágicos
fazer o que se nos der na telha
voar sem asas

*

amorzinho

líria porto

para te dizer ai loviú
adoro teus bigodes
pintei as unhas de azul
vamos a são roque comer alcachofras
amanheceu tão bonito
tenho carne de sol
comigo ninguém pode
odeio tuas amigas
comprei um mimo pra ti
voo no domingo
vou de vassoura
não vejo a hora

vamos beijar juntos?

*

sábado, 5 de julho de 2008

avó

líria porto

um carneirinho
perdeu-se no céu
:
não chores meu bem não chores
mamãezinha foi chover
e não demora

*

fatídico

líria porto

a vida nos trata conforme a tratamos
a morte nos mata em quaisquer
circunstâncias

*

avessos

líria porto

eu sou minha tu és teu
sem caras-metades sem meias verdades
e seguimos felizes até a crise

(ou a crase)

*


evolution

líria porto

coça a cabeça o corpo a orelha
quase um mono

pensa?

*

sexta-feira, 4 de julho de 2008

marginal

líria porto

acalento versos
como se fossem bebês

cuido deles alimento-os
dou-lhes as melhores letras

nem sempre consigo
cada verso tem sua própria
índole

*

quinta-feira, 3 de julho de 2008

'délia

líria porto

a dona que compra quiabos na feira
diz cada coisa e nada tem de doida

a mulher do zé de freitas
é sábia

*

obstrução

líria porto

um poema ocluso amarrado dentro
a gritar calado a soar silente
a enlouquecer-me

*

quarta-feira, 2 de julho de 2008

caríssima

líria porto

vou juntar num só buquê lírios e flores do campo
amarrar laço de seda enfeitar com pirilampo
e mandá-lo para mim

*

íngua de sogra

líria porto

lua-de-mel minha linda
só lhe adoça o céu-da-boca
pois depois a vida a dois
pode amargar a língua

*

lacrima

líria porto

no tempo dum pingo d'água
eu nunca vi tanta mágoa desprender-se
duma rima

*

orgulho

líria porto

quando as tias disseram
em tom muito humilde
ele é bom para nós
dá-nos o arroz
num pulo reagi
: não devam tão pouco
a homem tão rico

eu tinha dez anos

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

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