sábado, 30 de junho de 2007

rochedo

líria porto

vou te contar quem é
meu querido amigo zé

zé é homem de grandezas
é forte mais do que touro
odeia como o diabo
age igual fazem os deuses

zé sabe de "a" a "z"
pode incluir "k" "w" e "y"
enfrentou já nesta vida
a montanha o precipício

zé quando quer e decide
sai da frente não o impeças
passa qual locomotiva
a arrastar sua espécie

zé é daqueles seres
tu o louvas ou maldizes
às vezes as duas coisas
jamais o desinteresse

zé é minério de minas
não se verga não se entrega
e carrega dentro dentro
um coração de ambrosia

ah
por pouco eu não falava
o zé despreza os poetas
a poesia ele exalta

*

louramanhã

líria porto

nórdica tristonha
aquela que sonha
com mares do sul

o frio desperta
aperta-se o inverno
no último de julho
de um ano
qual_quer-me

*

quinta-feira, 28 de junho de 2007

incômodo

líria porto

nem sai nem fica  permanece
sem documento ou registro
igual um cisco no olho

*

sábado, 23 de junho de 2007

vômitos

líria porto

o susto o ronco o estrondo
o monstro de mil tentáculos

o cheiro forte de enxofre
o rio de lava e gases

o fogo a (es)tragar os montes
o etna o vesúvio

o stromboli

*

haicai

líria porto

a lua crescente
meia taça de sorvete
de creme holandês

*

sexta-feira, 22 de junho de 2007

perpétua

líria porto

pior que a morte
é passar a vida
numa gaiola

*

recomeço

líria porto

o luar é tão bonito
um colírio verdadeiro
a curar os olhos velhos

*

quinta-feira, 21 de junho de 2007

rica

líria porto

meteu-se um raio de sol
entre o orvalho e a folha

pela fração de um segundo
fui a dona do tesouro

*

por trás da nuvem

líria porto

o sol não me olha nos olhos
sua luz é fugidia  parece esconder segredos
ocultar o que fazia

*

onde?

líria porto

quero entender não pergunto
só fico aqui matutava  saiu ao entardecer
retornou na madrugada

*

sertaneja

líria porto

fui formosa desejada
vesti as flores da chita
o coronel me queria
muito luxo pouca estima

arriei o meu cavalo
gostava de liberdade
fugi em noite de chuva
procurei o meu destino

eu ouvi o berro d'água
puxei baldes da cisterna
conduzi carro de boi
tive amores entre as pernas

capinei muita tristeza
plantei lavoura de filho
fiz farinha fiz polvilho
namorei cabo e soldado

fiquei velha antes do tempo
matei cobra cascavel
defendi a vida a tapa
paguei conta de aluguel

a vida passou corrida
sol quente acabou comigo
tenho pele encarquilhada
e uma pobreza infinita

duma coisa sinto orgulho
o que tive nesta vida
meu casebre minhas asas
não foram favor de rico

*

buraco negro

líria porto

até onde podemos nos aventurar
pressentir nossas crateras e abismos
:
qual a dimensão das nossas
profundezas?

*

canudo

líria porto

sopa mingau atenção
cuidados carinho tudo

queria pedia sugava
regurgitava engolia

buraco-sem-fundo

*

terça-feira, 19 de junho de 2007

escape

líria porto

porque hoje é sábado
dia sem pretexto
toma banho cedo
vai ao bar da esquina
bebe água ardente
petisca tolices

porque hoje é sábado
ronda as cercanias
assobia canta
rebate um sambinha
senta-se à sarjeta
espera as estrelas

porque hoje é sábado
esquece da lida
da carga dos fardos
pedras e espinhos
depois na segunda
retorna à dureza

*

lixo / luxo

líria porto

cambitos fincados em largas botinas
olhos cravados no nada
unhas sujas feridas andrajos
cães porcos mosquitos
plásticos garrafas seringas
restos                          
/
nas igrejas - ouro em demasia

*

domingo, 17 de junho de 2007

amor

líria porto

do que não fomos
do que não vivemos 

eu morro de saudades
do que não seremos

*

ignorância

líria porto

tudo cabe no escuro
inferno paraíso limbo

*

sexta-feira, 15 de junho de 2007

tesouro

líria porto

tão pobres tão ricos
nas piores horas o teu ombro
amigo

*

ma(n)chete

líria porto

à noite não vem
e o dia é morto

*

quinta-feira, 14 de junho de 2007

mensagem

líria porto

eu disse a meu verso triste
que tu percebeste a tristeza que ele tem
o meu verso triste deu-me um breve riso
pediu-me que eu te desse o riso
pois verso pode ser triste
tu não

*

cidade

líria porto

a fumaça ameaça-nos
e as dúvidas - tais quais cataratas
anunciam o acúmulo

postes fios desvios avenidas ruas e curvas
rios de gente de segunda a segunda

*

trova

eu tenho cada desejo
cada ideia tão louca
quero ser batata frita
pra crocar na tua boca

favo

líria porto

de tudo que vi
escolhi os teus seios
retirei do entremeio
dentre as pontas em cor
um cadinho de mel
lambuzei minha boca
tinha gosto de uva
depois da chuva

*

quarta-feira, 13 de junho de 2007

haicai

líria porto

no parque do carmo
cerejeiras de okinawa
mulheres de xale

*

haicai

líria porto

fogos de artifício
as estrelas cintilantes
das noites de junho

*

terça-feira, 12 de junho de 2007

uai(s)

líria porto

eu não sabia o sentido
da palavra acepipe

espiei no dicionário
e refinei a saliva

*

tarântula

líria porto

tentam-me os teus tentáculos
entesto-me nestes teréns
transformo-os em tatibitates
em tereterês

*

segunda-feira, 11 de junho de 2007

conquistador

líria porto

a desejar tudo e todos
sem ao menos pensar
que ninguém é dono
de nada

*

percepção

líria porto

para se obter bons versos
lapidá-los a contento
não bastam belas palavras
ou o domínio da pena

além do que os olhos veem
do que o corpo perceba
a alma tem que atuar
como se fora uma antena

*

irracional

líria porto

sentei-me em seu colo
vi na gola polo
marcas de batom

fiquei uma fera
mas também pudera
era a dona da bola

quebrei a raquete
num milhão e sete
ninguém me deteve

foi depois da janta
que o sacripanta
fez-me o que me fez

(virei o capeta)

*

terremotos

líria porto

o leite – o gatinho lambe-o
o pratinho treme

o creme – a menina come-o
a tigela geme

a língua – ela me alisa
o meu corpo freme

(pequenos abalos
sismicos)

*

domingo, 10 de junho de 2007

como vê-las

líria porto

a vida é fogo
a morte - um sopro

*

sexta-feira, 8 de junho de 2007

quem tem pena de passarinho é passarinho

 

persistência

líria porto

todo dia
a morte ia
ao cemitério

*

domingo, 3 de junho de 2007

bala pedida

líria porto

quem não morre de amor
morre de câncer

*

descrença

líria porto

democracia é invenção
do demo

*

ensaio

líria porto

os ipês rosa brancos e roxos floriram
os amarelos esperam olhos preparados
para o espetáculo da luz

*

dedicatória

nus descampados (im)puros
fiamos o plenilúnio

(líria porto)



*















quem tem pena de passarinho
é passarinho

(líria porto)

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